Xumucuís de Valdir Sarubbi

A instalação “XUMUCUÍS” foi criada por Sarubbi para participar da Pré-Bienal de São Paulo em 1970.

Artistas de todos os estados brasileiros foram chamados pela primeira vez a participar de uma seleção de artistas que representariam o Brasil na XI Bienal Internacional de São Paulo.

Valdir Sarubbi foi um dos 30 artistas selecionados.

Na Bienal Internacional, o artista ampliou seus bastões sonoros, que se tornaram um dos grandes sucessos do público que visitou a Bienal. A interação entre público e obra era completa, pois mexia com todos os sentidos de quem participava da instalação.

Vinte e dois anos depois Sarubbi remontou essa instalação quando foi convidado pela Deutsche Welle (radio internacional alemã) para expô-la em Colonia, Alemanha, durante as festas de comemoração dos 40 anos de sua inauguração.

Depois essa instalação permaneceu 2 anos na Alemanha, participando da exposição “AGUA, MMIRI, WASSER” , que reuniu artistas alemães, brasileiros e africanos que sempre trabalharam com a temática “ÁGUA”. Esta mostra, patrocinada pelo DEUTSCHE BUNDESSTIFTUNG UMWELT percorreu as seguintes cidades: Arnstadt, Munique, Rheine, Potsdam, Rügheim e Nuremberg.

A importância desse trabalho de Sarubbi foi resgatar o brinquedo “Pau de Chuva” e trazê-lo para São Paulo em 1970, quando era totalmente desconhecido pelo público paulista.

ASSUNTO
Trata-se de uma instalação que segue a coerência de meu trabalho, que sempre foi feito a partir de raízes amazônicas. Meu tema constante tem sido o RIO.

A instalação consiste em trinta e seis bastões de tamanhos diferentes que variam de 0.50m a 2.00m, montados em forma de totens sobre uma leve armação, que podem ser deslocados de suas
bases para serem manuseados pelo público.

Os bastões são levíssimos, recobertos com camadas de papel de seda franjado, de carater bem popular no estado do Pará, nas cores vermelho e branco.

0 público é convidado, através de um cartaz afixado ao lado do trabalho, a participar do mesmo. Tomando-se um dos bastões e girando-o lentamente em várias direções e dando voltas completas, ele emite sons de ÁGUA escorrendo, cachoeira, corredeiras, chuva caindo ou o que mais permitir uma imaginação fértil.

Os sons partem sempre do elemento ÁGUA. Quando várias pessoas estão manuseando os bastões, que emitem sons diferentes conforme o modo de manusear, é possivel se formar um som de música aleatória, bastante agradável e relaxante. Aliás, esse foi o motivo principal do convite feito pela Deutsche Welle, que divulga bastante a música experimental.

Na 11a. Bienal Internacional de São Paulo, em 1971, mostrei uma outra instalação que também usava esses objetos sonoros.

PROPOSTA
0 artista se propõe atingir as pessoas na maior parte de seus sentidos. Da visão, proporcionando uma experiência estética da forma, da cor e da organização dos objetos. Da audição, proporcionando ruidos relaxantes da Natureza. Do tato, através de uma relação acariciante com o franjado do papel de seda.

CONCEITO
“XUMUCUlS” tenta ser o tratamento atual de um tema popular.

Acredito que numa terra subdesenvolvida como a nossa é muito válida a utilização de elementos nativos para a criação de uma arte com características modernas. Embora os meios de comunicação tragam com rapidez considerável a todas as cidades o produto da Arte contemporânea internacional, não se pode negar que os condicionamentos regionais influam o artista que se propõe a fazer uma arte shéia, sincera, moderna e original.

Sou um homem que nasceu no interior do Brasil e dentro de mim existe muito do que vi na minha infância e do que vivi naquela época e naquele lugar. 0 artista é um cronista do seu tempo e do seu lugar e para isso ele se vale de todos os elementos que estão a sua disposição. Fazendo Arte com esses elementos (sofisticados, nobres ou primitivos) e tentando vários objetivos (sendo o mais importante deles, a comunicação) o artista hoje retrata sua época e seu lugar das maneiras mais variadas.

0 importante para mim não é o engajamento do artista dentro de tendências ou movimentos especificos, mas um visão aberta de quem olha a obra de arte para apreciá-la naquilo que ela apresenta de sensível, seja sobre que forma for. 0 importante para mim é que a arte que o artista faz seja um reflexo dele mesmo e não uma dublagem de tendências artísticas orquestradas pela mídia ou uma simples ilustração de teorias artísticas contemporâneas. Muito importante é o processo criativo do artista, que se desenvolve na medida em que ele cresce como pessoa humana. Sem queimar etapas, sem pressa para atingir o sucesso. Este crescimento se reflete no amadurecimento de sua obra.

Para uma perfeita comunicação entre o homem e a obra de arte creio necessário uma grande pureza e uma enorme sinceridade de ambas as partes.

Todos os caminhos são válidos para um artista percorrer. E eu tentei percorrer com este trabalho um caminho que me é muito caro e que me marcou profundamente: o da arte simples de meu povo e de meus ancestrais.

Originalmente estes objetos são pequenos brinquedos feitos com madeira de buriti (palmeira) e espinhos de tucum (palmeira), dentro dos quais se colocam sementes que, ao passar pelos labirintos de espinhos, emitem sons de Água escorrendo. Servem como chocalhos para brincadeiras de criançãs bem pequenas. Os sons são relaxantes e levam as criançãos a dormir.

ESPAÇO
A instalação será montada no centro de uma sala ampla, preferencialmente branca ou negra, para proporcionar aos espectadores visões diferentes de qualquer lado por onde eles se aproximarem para participar da experiência de sensorização com o trabalho.

TITULO
“XUMUCUlS” é o nome de um pequeno rio que existe no interior do estado do Pará, Brasil, onde nasci. A substantivação foi dada pela estreita relação entre o nome do rio e o som emitido pelos objetos.

CARTAZ
“APANHE UM DOS BASTÕES, GIRE-O LENTAMENTE EM VÁRIAS DIREÇÕES, DANDO VOLTAS COMPLETAS. VOCÊ VAI OUVIR SONS, APÓS ISSO, INVENTE OUTROS MOVIMENTOS, CRIANDO NOVOS SONS, QUE DESEJA OUVIR.”

Fonte: Valdir Sarubbi

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Exposição de obras de Sarubbi na Galeria Pontes (SP)

Exposição individual de Valdir Sarubbi – Desenhos, pinturas e relevos.

Curadoria: Alex Cerveny.

Abertura: terça-feira, 30 de novembro, às 19 horas.

Dando sequência ao ciclo de palestras e debates sobre a “Identidade Cultural Brasileira” nesse dia haverá uma mesa-redonda com Sheila Mann e Renato Rezende, às 20 horas.

Período: de 30 de novembro de 2010 a 8 de janeiro de 2011 – De segunda a sexta, das 10 às 19 horas; e sábado das 10 às 17 horas.

Rua Minas Gerais, 80 Higienópolis 01244-010 São Paulo – SP. 55 11 3129-4218 galeria@galeriapontes.com.br

 

Valdir Sarubbi – a força de uma ausência

Não é tarefa simples escrever sobre Valdir Sarubbi; pois tanto sua pessoa como sua obra (ambas homenageadas com esta exposição no décimo aniversário de sua morte) não são afeitas à superficialidades e rotulagens. Ademais, ambas – pessoa e obra – se confundem em mim; em muitos de nós, que fomos seus alunos, seus amigos, seus escolhidos e que o amamos e fomos por ele amados. Acima de tudo, Sarubbi possuía uma profunda capacidade de amar: amava generosamente, com profundo respeito pela individualidade de cada aluno ou amigo, permitindo o florescimento de cada relacionamento com a mesma sensibilidade e esmero que percebemos em suas obras plásticas. Sua morte precoce (ele não concordaria com esta expressão, consideraria uma contradição em termos) inaugurou uma ausência fundamental na vida dos seus entes mais próximos e mais queridos – e também na história da arte no Brasil.

Eu conheci Valdir Sarubbi em 1980, inicialmente como aluno, depois como amigo, em seu “Atelier Livre”. O Brasil começava a respirar os ares mais livres do fim da ditadura militar e, pouco a pouco, com o advento da democracia, uma vida cultural e intelectual mais articulada e institucionalmente organizada foi se restabelecendo no país. Nas artes visuais, as estratégias de resistência e experiências conceituais de artistas como Cildo Meireles, Antônio Manuel, Barrio e outros deram lugar a euforia e gestualidade da chamada Geração 80. Como tende a acontecer em países ainda em formação, desprovidos de uma tradição filosófica forte e, ainda por cima, sujeitos à regimes totalitários, tanto as tendências artísticas dos anos 1970 como as dos anos 1980 tinham algo de “movimento”, de dogmático – uma agenda exterior ao trabalho plástico em si. Isso fica evidente, por exemplo, no depoimento de Brígida Baltar sobre o início de sua carreira: “Lá [no Parque Lage] encontrei uma pré-cena Como vai você geração 80? e os estímulos eram para quanto mais gesto e cor melhor. Eu sofri bastante, tentando me identificar nesse caminho, ‘soltar’ as formas, ainda usando lápis de cor, mas os desenhos eram de uma sutileza fora de lugar. Eu ia tentando exaustivamente, chegar aquela gestualidade toda – como se fosse uma direção certa e única a se seguir”.[1]

Nada mais distante da pessoa e da obra de Valdir Sarubbi do que tais movimentos totalizantes, impositivos ou militantes (por mais que possamos estar de acordo com os princípios e valores defendidos por tal militância). Extremamente consciente do que é ser um artista e como se desenvolve uma linguagem artística sensível, o próprio Sarubbi deixa isso claríssimo em várias ocasiões: “O importante para mim não é o engajamento do artista dentro de tendências ou movimentos específicos, mas uma visão aberta de quem olha a obra de arte para apreciá-la naquilo que ela apresenta de sensível, seja sobre que forma for. O importante para mim é que a arte que o artista faz seja um reflexo dele mesmo e não uma dublagem de tendências artísticas orquestradas pela mídia ou uma simples ilustração de teorias artísticas contemporâneas. Muito importante é o processo criativo do artista, que se desenvolve na medida em que ele cresce como pessoa humana. Sem queimar etapas, sem pressa para atingir o sucesso. Este crescimento se reflete no amadurecimento de sua obra.” [2]

Passado já uma década desde sua morte, constata-se que o Brasil ainda não foi capaz de merecer um artista do porte de Valdir Sarubbi. Se a memória de sua pessoa continua pulsando em cada um de nós – seus amigos – na forma de gestos adquiridos, lembranças e afetos (são inúmeros, por exemplo, os objetos que ainda mantenho da época do Atelier Livre, e que me remetem diretamente à presença do Valdir e suas lições salutares), a ausência de seu nome em compêndios e retrospectivas de arte que têm sido promovidas nos últimos anos no Brasil, já consistentemente democrático e economicamente pujante, é um eloquente lembrete do quanto ainda temos que amadurecer enquanto nação.

Ainda não fomos capazes de assimilar uma obra desgarrada do mainstream e capaz de levar a linguagem plástica a elevados níveis de complexidade e sofisticação. Como poucas, a obra de Valdir Sarubbi, jamais se afastando do rigor de uma sensibilidade refinada e intuitiva, constitui um pensamento. Há uma qualidade investigativa, e quase obsessiva, em séries como Meditação Labiríntica e Antiguos Duenõs de las Flechas, como se houvesse uma procura, um intrincado mapeamento de memórias e afetos (que não buscam ser resolvidos, mas apenas revelados, descobertos, elaborados) – não por acaso o rio, com suas profundezas, sombras e sinuosidades, aparece como uma de suas mais fortes metáforas. É quase sintomático que a memória tenha sido um dos temas mais recorrentes da obra de Valdir Sarubbi. Suas últimas telas, cheias de leveza e luz, atestam sua fé no espírito humano – espírito que ele tanto reconheceu e cultivou em si mesmo e em todos aqueles que tiveram o privilégio de compartilhar sua vida.

Notas:
1 Baltar, Brígida. Passagem Secreta (org. Márcio Doctors). Rio de Janeiro: Funarte/Circuito, 2010.
2. Bittar, Rosana. Sarubbi. Belém: Estacon, 2002.

Renato Rezende

Site oficial de Valdir Sarubbi: clique aqui

 

A GALERIA

“A Galeria Pontes, recém inaugurada, dedica-se exclusivamente à arte popular. É o resultado do olhar amoroso, ensolarado de Edna Matosinho de Pontes que percorreu todo o Brasil à procura de peças que expressassem com inventividade a magia do povo brasileiro e a força da nossa natureza.
Na escolha dos artistas e das peças, Edna deixou a paixão no comando, mas procurou sempre o horizonte da autêntica criatividade. E assim, com paciência e a necessária obstinação, Edna Matosinho de Pontes reuniu um acervo rico e diversificado. As obras são originárias das mais distantes regiões brasileiras – foram produzidas na floresta amazônica, no pantanal de Mato Grosso, no serrado de Goiás, no vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais, no sertão de Pernambuco, enfim, vieram do vasto mundo que compõe o nosso país. O conjunto forma um panorama da alma brasileira, apresenta um Brasil sonhado pelo seu povo, com exuberância, mística e sensualidade.
A Galeria Pontes é, em si mesma, ensolarada, um arco-íris. Um espaço de muita vitalidade. Energia que não para de brotar, porque a arte popular é germinal, isto é, plena de vida.”

Fábio Magalhães – Museólogo, Crítico de Arte e Curador da Exposição Inaugural da Galeria Pontes, “Olhar Ensolarado”

A Galeria Pontes, inaugurada em setembro de 2008, fica em São Paulo, num casarão tombado pelo patrimônio histórico, entre os bairros de Higienópolis e Pacaembu.

Em seu acervo estão obras de G.T.O., Mestre Eudócio, Maurino de Araujo, Antonio Julião, Poteiro, Bajado, Waldomiro de Deus, Tota, Adir Sodré, Miguel dos Santos, Sil e outros nomes significativos da arte popular brasileira contemporânea.

 

Homenagem póstuma a Valdir Sarubbi pode acontecer em 2010 (por Luciana Medeiros in Holofote Virtual)

Matérial original publicada em Holofote Virtual, escrita por Luciana Medeiros.

Como este blog é dedicado ao artista Valdir Sarubbi não poderia deixar postar essa excelente entrevista com o filho de Sarubbi, Jonas Medeiros.

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A recente tragédia ocorrida com grande parte da obra de Hélio Oiticica, no Rio de Janeiro, reacendeu as discussões sobre conservação e aquisição de acervo de obras de arte de artistas brasileiros.


E isso só aguçou mais ainda na minha lembrança que a obra de um artista paraense, considerado um dos maiores nomes da arte contemporânea brasileira, ainda está por ser organizada de forma a ser disponibilizada a pesquisadores e amantes da arte. Caso estivesse vivo, Valdir Sarubbi, nascido em Bragança, interior do Pará, teria chegado, no último dia 10, aos 70 anos. Na foto acima, uma das obra do acervo Valdir Sarubbi.

“A qualidade que empregava em seus trabalhos era tão grande e tão refinada, que lhe renderam, inclusive, em 1999/2000 um prêmio-bolsa pela Pollock-Krasner Fondation de Nova York, da qual recebeu rasgados elogios”, escreveu o pesquisador de arte Rui Dell’Avanzi Jr. em seu blog (http://arteautentica.blogspot.com/), no dia 9 de outubro.

Infelizmente, o perdemos numa madrugada do mês de novembro do ano 2000. No próximo ano, esta perda completará uma década e muito do que ele deixou, inclusive de inéditos, permanece sob a guarda da família, mais precisamente do único filho que teve, Jonas Medeiros.

“A mapoteca do meu pai fica na sala do nosso apartamento, contendo desenhos, gravuras, pequenas pinturas em papel, além de rascunhos e esboços, estes de valor mais histórico. Também temos guardadas, pastas e mais pastas com documentos, reportagens, resenhas, críticas, ou seja, textos escritos pelo e sobre o meu pai. Pensamos que, todo esse arquivo deveria ser objeto de pesquisa de algum profissional sério, interessado em preservar, reconstituir e valorizar a obra do meu pai”, diz Jonas.

Jonas esteve em Belém, no início deste ano, para participar do Fórum Social Mundial. Aproveitou para apresentar a algumas pessoas o projeto “Sarubbi Gravador”, aprovado pela Lei Rouanet. Conversou com diretores de Museus e antigos amigos de Sarubbi, como Lucinha Chaves, Benedito e Maria Sylvia Nunes, entre outros.

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No momento, ocupado com o Mestrado em Filosofia, que faz na capital paulista, onde mora, Jonas encontra dificuldades para fazer a captação do projeto. “Temos alguns contatos, mas os reflexos da crise ainda se sentem e também o meio dos departamentos de cultura e marketing das empresas são uma espécie de “mapa da mina”. Só quem é conectado tem acesso aos meios”, reclama.

Pintor, desenhista, gravador e professor, foi durante as décadas de 70 e 80, que o artista paraense, radicado em São Paulo, desenvolveu um trabalho intenso na técnica de gravura em metal, notadamente água-forte e água-tinta. Ao falecer, deixou em seu atelier, 25 placas gravadas em cobre e mais duas em estanho, matrizes de suas peças que se encontram bem conservadas (uma delas na foto acima).

O projeto prevê a edição de caixas de gravura, impressão de catálogo, com grande tiragem, e envio, em forma de doação, para instituições idôneas no Brasil e no exterior, de modo que cada instituto elabore seu modo de expor e de validar o registro de parte da obra de Sarubbi. Jonas já conta com cartas de aceitação de instituições como, a Pinacoteca de São Paulo, Museu Casa das Onze Janelas, em Belém, e Museu de Arte de Brasília, entre outras.

O projeto seria uma bela homenagem póstuma a Valdir Sarubbi que, em vida, produziu uma vasta obra, cujos traços e nuances são, declaradamente, reflexos de suas memórias e amor pela Amazônia.

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Tomara que sejam obtidos os recursos de patrocínio. Seria legítimo que empresas não só de São Paulo, onde viveu muitos anos, mas principalmente aqui do Pará, sua terra natal, se interessassem. Escrevo com a esperança de que este importante projeto chegue ao conhecimento de muitos que poderiam se unir a esta empreitada. Os contatos com Jonas podem ser feitos através do e-mail: jonas.msm@gmail.com

É preocupante a demora na captação, o que pode custar a suspensão do certificado da Lei Rouanet, que viabiliza patrocínios de empresas privadas através da aplicação de uma parte do IR (imposto de renda) devido, em ações culturais. Isso levaria à perder a oportunidade de realizar o projeto e, mais do que isso, esta merecida homenagem a Valdir Sarubbi, em 2010. Acima, imagem de mais uma das gravuras.

Além das placas gravadas, Sarubbi deixou um grande acervo de telas que foi, logo após seu falecimento, cuidado por Marina Marcondes Machado, mãe de Jonas, que na época só tinha 15 anos. Abaixo, segue a entrevista que fiz com Jonas, pouco tempo depois de sua visita a Belém.

ENTREVISTA

No ano que vem, completam 10 anos de morte de seu pai. Quando foi que vocês começaram a cuidar do acervo deixado por ele?

Jonas Medeiros:
Na verdade, precisamos começar a remexer no acervo desde o primeiro momento, ainda “de luto”, para “desmontar” o atelier que meu pai mantinha na Rua Albuquerque Lins, no mesmo apartamento em que ele morava. Como o espaço era alugado, tivemos que lidar não só com o acervo, mas também com papéis, pastas, móveis, livros e LPs, de modo que, em três meses, esvaziamos o apartamento.

Com o que vocês foram se deparando?

Jonas Medeiros:
Minha mãe foi de fato a responsável pelo “desmanche” do atelier, criando alguns critérios para guardar tudo aquilo que parecesse de alguma maneira importante para a memória do meu pai, e elegendo amigos e conhecidos para doar móveis, telas em branco, fogão, geladeira e outras coisas do gênero. Na época eu tinha só 15 anos de idade.

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O que vocês mantêm guardado?

Jonas Medeiros:
Hoje, no nosso apartamento, mantemos um quarto só para abrigar os quadros. Nós temos uma série de telas inéditas que meu pai estava pintando entre 1999 e 2000 (ao lado esquerdo, uma delas).

De nove anos pra cá, entramos em contato com colecionadores e também com amigos próximos de nós e do meu pai. Vendemos algumas obras, especialmente por necessidade financeira. Foi assim que a DAN Galeria adquiriu grande parte da série dos chamados “desenhos negros” e realizou, em 2006, uma exposição desses trabalhos que foi bem bonita e interessante.

A mapoteca do meu pai fica na sala do nosso apartamento, contendo desenhos, gravuras, pequenas pinturas em papel, além de rascunhos e esboços, estes de valor mais histórico. Também temos guardadas pastas e mais pastas com documentos, reportagens, resenhas, críticas, ou seja, textos escritos pelo e sobre o meu pai. Pensamos que todo esse arquivo deveria ser, algum dia, objeto de pesquisa de algum profissional sério, interessado em preservar, reconstituir e valorizar a obra do meu pai.

Quando nasce o projeto das gravuras e quais as parcerias que já estão fechadas?

Jonas Medeiros: Bom, o projeto de reedição póstuma das gravuras do meu pai nasceu da nossa vontade em resgatar a obra do meu pai, fazer com que ela circule no mundo, que as pessoas possam entrar em contato – em vez da obra ficar aqui, preservada mas isolada.

Quem nos apoiou bastante para começar a tocar este projeto foi o fotógrafo Juan Esteves, cerca de dois anos atrás. Ele nos ajudou a entrar em contato com a Graphias, atelier que será responsável pela impressão das gravuras, e com o Collegio das Artes, escritório parceiro para formatação do projeto para a Lei Rouanet.

O Juan também fotografou a impressão-piloto para nós, que já foi realizada, comprovando a boa qualidade das chapas que mantínhamos aqui em casa. É importante registrar que, antes do Juan nos convencer em apostar neste projeto, esta idéia já vinha nos rondando a mente, principalmente por causa dos conselhos valiosos que recebemos do Gileno Chaves, que além de grande amigo pessoal do meu pai, foi uma pessoa muito importante para a carreira dele.

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Como funcionará a parceria com as instituições que receberão as caixas com as gravuras?

Jonas Medeiros:
A idéia do projeto envolve a parceria com nove museus brasileiros, o que o torna um projeto de alcance nacional. As parcerias consistem na doação de uma Caixa de Gravuras, contendo 27 imagens impressas postumamente, com o compromisso de cada museu organizar uma exposição de homenagem póstuma a Valdir Sarubbi, preservando adequadamente as gravuras em seu acervo.

Mais uma das gravuras, acima.

Também serão doados catálogos, em edição bilíngüe e com texto de apresentação do artista, gravador e professor universitário Cláudio Mubarac. Esse formato nos foi sugerido pelo Marcelo Araújo, diretor da Pinacoteca do Estado de São Paulo.

Nossa vontade é de que as exposições sejam feitas de forma relativamente simultânea, em diferentes cidades do Brasil, no ano de 2010, por volta dos meses de outubro e novembro, que são os meses do nascimento (se o meu pai estivesse vivo ele faria 70 anos neste ano) e do falecimento (10 anos de sua morte em 2010).

Quais são os museus e instituições envolvidas?
Jonas Medeiros: Já obtivemos o aceite de sete dos nove museus: Pinacoteca do Estado de São Paulo, Casa das Onze Janelas em Belém, Museu de Arte de Brasília, MAMAM do Recife, MARGS de Porto Alegre, MAC-Dragão do Mar em Fortaleza, MARCO em Campo Grande, e estamos esperando resposta definitiva do MAM do Rio de Janeiro e do MON de Curitiba.

Entre os achados no apartamento dele, havia muitos escritos. Você sabia que ele cultivava uma veia de escritor também?

Jonas Medeiros: Se eu conhecia bem esse lado do meu pai? Acho que não… Eu tenho muitas lembranças lá por 1999, 2000, que foram os dois últimos anos de vida dele, de acompanhar o processo de escrita. Ele, sentado no computador, imprimindo diferentes versões do texto, depois mandando cópias para pessoas que ele conhecia como a prima dele Maria Lúcia Medeiros, escritora que morava em Belém. O meu pai chegou a ilustrar algumas capas de livros dela.

Eu sempre tive muita dificuldade em ler os escritos dele, quero dizer, em vida, eu acho que não dei o valor que hoje eu gostaria de ter dado, talvez por ser muito novo e, agora, depois da sua morte, eu ainda acho doloroso pegar os textos dele pra ler.

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Como ele te vem na memória?

Jonas Medeiros:
Eu tenho uma memória daquelas que você não sabe se ela vem realmente de conversas que eu tive com o meu pai, ou então se ela já é fruto daquilo que li em entrevistas dele, sobre a vontade de ser escritor quando era jovem, uma “vontade de escrever como o Guimarães Rosa”.

Eu não sei se existem textos desses anos que sobreviveram, mas ele falava que, por ser um bom leitor, ele reconhecia que ele mesmo não era um bom escritor nessa época.

Acho que, com o passar dos anos, ele foi sentindo a vontade de se expressar de outras formas, para além das artes plásticas. O que eu posso te dizer sobre os escritos é que existem duas impressões em papel, que mantemos aqui em casa; uma série de contos chamada “Amanhecer, amanheceres” e um romance que se chama “Histórias paralelas”. Eu não sei muito bem dizer qual a relação entre um e outro, só sei dizer que os dois começam com uma dedicatória assim: “Para Jonas, estas memórias de minha cidade natal”.

Essa coisa de memória tem tudo a ver com o todo da obra, se for ver nesta própria dedicatória está contida uma referência ao “Quarteto de Alexandria”, do escritor Lawrence Durrell, que faz uma dedicatória quase igual a essa. A série do meu pai “Memórias de Alexandria”, que marca uma produção mais abstrata na virada da década de 1980 para a de 1990, é inspirada nessa série de livros, segundo ele mesmo uma “releitura sensível” destes livros. Então no final das contas a literatura sempre esteve como horizonte do meu pai, seja como leitor, como “releitor”, na forma da produção artística e também no final da vida, como escritor.

Depois de todos esses anos, eu e minha mãe ainda não conseguimos encaminhar a forma de tornar isso público, de modo que seja reconhecido, vamos ver se isso não vira um projeto pros próximos anos…

ACERVO


Como foi retornar a Belém? Você visitou várias pessoas ligadas diretamente ao teu pai ou à obra dele.

Jonas Medeiros: É verdade. Eu estive em Belém agora no final de janeiro e acho que não deu ainda pra digerir totalmente o que foi essa viagem, principalmente porque tudo foi muito intenso. Foram cerca de 10 dias que muitas coisas aconteceram.

Encontrei toda a minha família que eu não via há anos e conheci pessoas que eu não conhecia, além de estar com meus amigos de São Paulo, que foram mais ou menos na mesma época para o Fórum Social Mundial.

Na foto logo acima, obra do acervo Valdir Sarubbi.

O que aconteceu de mais importante?

Jonas Medeiros:
Acho que o mais importante, nesse caso, foi que a viagem me proporcionou assumir um papel mais ativo em relação ao cuidado do acervo do meu pai. Eu pude entrar em contato com dirigentes de diferentes museus de Belém, como a Nina Matos na Casa das Onze Janelas e a Jussara Derenji, no Museu da UFPA, além de ter encontrado a Lucinha Chaves, esposa do Gileno, na galeria Elf.

Também conversei com outras pessoas sobre a possibilidade de valorizar a obra do meu pai em Belém, como o Ronaldo de Moraes Rêgo e o Mariano Klautau Filho. Como estava para começar o período de captação de recursos por meio da Lei Rouanet para o projeto das gravuras, eu também estava interessado em sondar possíveis formas de patrocínio.

Tive a oportunidade de encontrar o prof. Benedito Nunes e a sua esposa Maria Sylvia Nunes, que foram grandes amigos do meu pai. Foi um prazer ter sido recebido na casa deles. Mas acho que o principal dessa viagem na verdade foi ter voltado pra Belém. Eu tinha ido pela primeira e única vez, em agosto de 1998, com o meu pai, obviamente. Na época, ele foi homenageado em diferentes ocasiões, aconteceram exposições em Belém e na cidade-natal dele, Bragança. Acho que esse foi o núcleo dessa viagem. Ter voltado sozinho, sem ele, foi muito intenso, de diferentes maneiras.