Exposição “Êxtase” de Guy Veloso, artista convidado do 31º Arte Pará

Êxtase de cores e personagens que se misturam em um envolvimento intenso que ultrapassa religiões. O fotógrafo Guy Veloso, convidado este ano do 31º Salão Arte Pará, traz uma individual de 13 fotografias ampliadas em grande formato na Galeria Fidanza, do Museu de Arte Sacra, a partir de sexta-feira, 12 de outubro. A curadoria é de Paulo Herkenhoff e Armando Queiroz.

 Entre 2009 e 2011 Veloso documentou em Belém-PA procissões Católicas e cultos de matriz africana (Umbanda, Candomblé e Tambor de Mina). E, o que é algo incomum hoje em dia: tudo feito com equipamento analógico. Trata-se do primeiro ensaio feito pelo fotógrafo após expor na 29ª Bienal de São Paulo em 2010, uma das 3 maiores mostras de arte do mundo.

 “Em 2004 o historiador e fotógrafo Michel Pinho me levou para fotografar um terreiro com a anuência do sacerdote. Desde aquele dia vislumbrei em fazer um estudo com as religiões afrodescendentes, o que poderia ser um dia exibido lado a lado aos tantos outros ritos que já documentava dentro do cristianismo”, diz o fotógrafo.

 Na mostra Veloso mistura umbanda e catolicismo na mesma parede e não coloca legendas abaixo das fotos, dando certo mistério, uma confusão de qual cerimônia se tratar. “Fiz de propósito: se elas chegam a se confundir na exposição, é por que não há de ter preconceito”, relata o artista.

 

Guy Veloso nasceu em Belém (1969), é formado em Direito e tem fotos em acervos de museus e galerias nacionais e internacionais, como a Essex Collection of Art from Latin America, Colchester-Inglaterra; Centro Português de Fotografia, Porto-Portugal; Coleção Joaquim Paiva/MAM-RJ; MAM/SP e Pirelli-MASP.

 

Site do fotógrafo: http://www.guyveloso.com.br

SERVIÇO

Curadoria:  Paulo Herkenhoff e Armando Queiroz

Visitação: 12 de outubro a 11 de dezembro de 2012

Horário: 10 às 18 horas, de terça a domingo

Local: Galeria Augusto Fidanza – Museu de Arte Sacra

Endereço: Praça Frei Caetano Brandão, s/n

Entrada franca

 

 

LINKS IMPORTANTES

Texto do curador

Penitentes na 29a Bienal de SP

Biografia

Críticas

 

Exposição 100menos10 // Movimento de 1922 reinventado pela fotografia paraense

Noventa anos se passaram desde que um grupo de artistas decidiu mostrar as inquietações de sua época, o que ficou na história como a “Semana de Arte Moderna de 22”. Anita Malfatti e Di Cavalcanti, pintura, Victor Brecherett, escultura, literatura dos irmãos Mário e Oswald de Andrade, arquitetura de Antonio Garcia Moya e música de Heitor Villa-Lobos são alguns dos nomes mais destacados. Curiosamente, a fotografia, já muito usada na época, foi deixada de lado. E é ela que vem agora fazer uma releitura contemporânea do Movimento Modernista.

De 13 de fevereiro até 16 de março na Galeria Theodoro Braga do CENTUR, em Belém-PA, 13 fotógrafos (Alan Soares, Alberto Bitar,  Elza Lima, Emídio Contente, Fatinha Silva, Flavya Mutran, Ionaldo Rodrigues, Luciana Magno, Michel Pinho, Miguel Chikaoka, Luiza Cavalcante, Pedro Cunha, Walda Marques) e 01 artista visual que utiliza a fotografia (Roberta Carvalho), prometem “recontar” essa história, cada um interpretando uma obra modernista.

“100menos10” trás uma visão paraense dos 90 anos da semana que abalou as bases das artes no país. Segundo o curador e idealizador do da exposição, o também fotógrafo Guy Veloso (recentemente curador da pasta de Fotografia Contemporânea Brasileira junto com Rosely Nakagawa na XXIII Bienal Europalia na Bélgica), “mais que um deslumbre nostálgico, queremos desde já levantar questões, trocar estática pela estética. Pensar o que estes 10 anos até o centenário nos reserva”.

Além dos que estiveram presentes em 1922, foram “convidados” à festa Tarcila do Amaral e o paraense Ismael Nery (ambos à época na Europa), tão como um contemporâneo, o ator e diretor Zé Celso Martinez, que até hoje prega os ideais antropofágicos em suas peças. A coletiva contará também com a intervenção da artista Drika Chagas que fará em grafite estilização de desenhos arqueológicos Amazônicos. Um paralelo interessante, já que Roberta Carvalho utilizará simultaneamente técnicas high-tech de projeção digital.

Alan Soares

PALESTRAS

. “Semana de 22: Tradição e Modernidade” por Ernani Chaves em 16/02, das 18h30 às 21h.

. “Diálogo com a ausência: a fotografia e a semana de arte moderna”, por Michel Pinho em 16/03, 18h30 às 21h.

HORÁRIOS DE VISITAÇÃO EXTENDIDOS

Uma curiosa inovação trazida pelo curador, as “Sessões Coruja”, nos dias 02 e 09/03, quando a visitação se estenderá até 21h 

F Sim. É permitido fotografar dentro da galeria durante esta exposição.

Luiza Cavalcante

Trezedefevereirodemilnovecentosevinteedois. Eclode em São Paulo um movimento intelectual libertário, vanguardista, anárquico, através da pintura, escultura, arquitetura, música e literatura, a “Semana de Arte Moderna”, que abalou as bases acadêmicas das artes no país e que agora repousa na memória coletiva de parte da população privilegiada pela educação de qualidade. Curiosamente, a fotografia, já amplamente utilizada à época, foi “esquecida”. 

Hoje, exatos 90 anos após, a olvidada fotografia aqui relembra Oswald e Mário de Andrade, Manuel Bandeira, Anita Malfatti, Vicente do Rego Monteiro, Brecheret, Di Cavalcanti, Tácito de Almeida, nomes que estiveram lá naquele momento histórico para a cultura nacional. 

Porém, a Grafia da Luz não deixa escapar neste projeto os que daquela atmosfera se apropriaram feito Tarsila do Amaral e o paraense Ismael Nery (que estavam na Europa em 22), à intelectual Pagu (então uma adolescente), como se espraie no tempo com um contemporâneo, José Celso Martinez, dramaturgo, ator e diretor que até hoje prega em suas peças a “brasilidade antropofágica”.

Esta exposição não tem pretensões didáticas nem históricas. Não quer escrever manifestos (há algo mais antiquado nas artes?), teses, nem troças. Queremos mostrar que Macunaíma está vivo na Amazônia depois de uma temporada no Rio onde foi enredo da Portela em 1975. Abaporu fugiu da Argentina e se agiganta em um enorme espelho d’água high-tech de milhões de pixels. Que as mãos femininas que inspiraram o escritor Menotti del Pichia seguem desfalecidas no chão até que ele, o poeta, também acorde de seu transe.

Pois a fotografia tem este poder.

Poderíamos ter esperado o “bolo das 100 velas” para fazer a exposição. Porém artista paraense “nasce de 7 meses” quando sonha. Mais que um deslumbre nostálgico, queremos desde já provocar, trocar estática pela estética, derrubar mitos e levantar altares, entronizar novos reis de naipes diferentes. Pensar o que estes 10 anos até o “centenário” nos reserva. 

Queremos demitir cartomantes e tomar mão de nossas vidas. Jogar fora a necessidade do aplauso vindo “lá de fora”. Tratar dos jogos de poder e azar nos processos analíticos, midiáticos e mercadológicos. Sexo e entorpecentes. Falar sobre o nosso futuro, o destino da nossa arte e do país. Assim como os desenhos grafitados pela artista convidada Drika Chagas nas paredes, chão e teto da galeria com estilização de pinturas pré-históricas de Monte Alegre-PA e traços das cerâmicas arqueológicas Marajoaras e Tapajônicas. Sim, pois não se pode considerar o “por vir” sem reconhecer de onde viemos.

Entre esboços rupestres de 9.000 anos a.C. e a cultura digital, queremos mostrar nosso rosto pintado de urucum ou no Photoshop. Viva a diversidade! Viva a utopia de um mundo melhor. Viva as frases feitas e desfeitas. Principalmente as ingênuas, vindas das crianças. O que farás da tua vida nos próximos 10 anos? Até Trezedefevereirodedoismilevinteedois?

 Guy Veloso

Curador e idealizador da mostra

Fonte: Debb Cabral / Guy Veloso

Guy Veloso

Guy Benchimol de Veloso nasceu (1969) e trabalha em Belém-Pará, metrópole de 1,5 milhões de habitantes no coração da Amazônia. De formação acadêmica em Direito (1991), é fotógrafo independente desde 1988.

Seu trabalho já recebeu publicações nacionais e internacionais, e compõe os acervos da “University of Essex Collection of Latin American Art”, Colchester-Inglaterra; “Coleção Nacional de Fotografia”, Centro Português de Fotografia, Porto-Portugal; Museu de Fotografia de Curitiba-PR; Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro-RJ, Coleção Rosely Nakagawa e Coleção Joaquim Paiva/Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro.

Para Rubens Fernandes Júnior, professor e curador especializado de fotografia, “as imagens de Guy Veloso surpreendem pelo non sense, pelo surreal, pela completa dissonância entre o mundo real e o outro mundo”. Paulo Máttar, curador e crítico de arte, segue o mesmo raciocínio: “interessante um certo desconforto, um certo estranhamento que provocam”.
Já o fotógrafo e curador Walter Firmo, revela: “a arte de Guy Veloso está em retransmitir sinais febris de uma horda encantada com a fé”. Texto na íntegra (Menu acima).
Já em 1998 realizou (com apoio técnico de Antonio Fonseca) a primeira vernissage transmitida ao vivo pela Internet no Brasil, uma das pioneiras do gênero no mundo. Em 2007 foi tema de um documentário para TV dirigido por Débora 70.

Em 2005 inicia trabalho paralelo como curador de mostras fotográficas. No mesmo ano, integra o livro “Fotografia no Brasil, Um olhar das Origens ao Contemporâneo”, de Angela Magalhães e Nadja Peregrino. Estas mesmas pesquisadoras ditaram: “sua obra é permeada por um grafismo e luminosidade laboriosamente trabalhados, evidenciando um apuro técnico e a paixão pela linguagem fotográfica”.
“Os ensaios de Guy Veloso convidam a uma experiência falaciosa. O chamamento parece sempre para o assunto, mas o discurso é sempre a própria cor como tônus do virtual”, conclui Paulo Herkenhoff, curador e crítico de arte.

Ensaio – Amazônia

Ensaio – Boa Morte

Ensaio – Santiago de Compostela

Ensaio – Entre a Fé e a Febre

Um documento de olhar pessoal

“Entre a fé e a febre – Retratos”, do abnegado, voluntarioso e criativo fotógrafo Guy Veloso, filho e residente da desassombrada Belém do Pará, retrata-nos a saga dos romeiros de Juazeiro do Norte-CE, dos peregrinos de Bom Jesus da Lapa-BA e penitentes diversos do interior profundo do país, quando a cada ano desfraldam-se, fervorosos, batendo com a sola dos pés o quente sertão de barro duro, pagando promessas, orando pedidos quando “com fé eu vou, que a fé não costuma faiá*”.

Há em alguns retratos o orgulho do crédito, a pose definitiva de quem está com Deus em caminhos ornados de flores de um crepom desnaturado, santo simbolismo; o perpassar da fita oscilando sobre a tênue pele tangida em frugal sensualidade consentida diante do muro das lamentações; a máscara superposta sobre a face escondida protegida na alegoria dos sonhos desfocados e verdadeiros; a beata diante da santa ostentando galhardas asas brancas com a “corbeille” de mato verde colhida no campo; certa jovem a posar com ares da “Virgem”, encostada diante de um muro cinza empedrado protegida por Jesus Cristo, desfila-nos certa empáfia assegurada; os olhos de cega fé, mãos fechadas em rosário vestidas em pano preto observam os pecadores; a emblemática mulher transformada e ambulante, protege-se por detrás da imagem de Nossa Senhora das Graças, virgem iluminada cujo rosto guarda o ornamento das estrelas; a fervorosa de preto deitada em transe sobre uma fenda de pedra parece dormitar suas dores parida e inconsciente goza de aflições incontidas; o frenesi estonteante transfigura a face morena de uma romeira transitória no rito de passagem diante da Virgem Santa; as meninas de branco em pleno sertão, modeladas em exótico panorama entre as arvores desgalhadas gravitam solenes em asas de coração e flores de pano; outras meninas assim carregam o pudor branco do manto envolvidas na prece do bem-querer; finalmente a Santa Ceia tangida pelas mãos enrugadas de uma senhora de cabelos brancos, que parece carregar a fé de todo o mundo.

A arte de Guy Veloso está em retransmitir sinais febris de uma horda encantada com a fé. É um documento de sua alma fabril, incansável humanista em nos brindar nessa itinerância militante que a ”fé não costuma faiá”.

Walter Firmo Fotógrafo e Curador. Catálogo do Fotoarte Brasília, 2005. * Gilberto Gil, “Andar com Fé”.

Fonte: Fotografia Documental