A ditadura militar atracada no Feliz Lusitânia

O que você acha daquele navio militar ancorado eternamente no píer da Casa das Onze Janelas? Em minha opinião ele deveria ir para um porto da Marinha do Brasil mais próximo, ou de preferência bem distante, o quanto antes. Eis os motivos que me levam a pensar desta forma. Antes do processo de revitalização do Núcleo Feliz Lusitânia toda a área que hoje compreende o Forte do Presépio e Casa das Onze Janelas era um quartel militar dos mais horrendos, e sabemos que proximidade de quartel militar geralmente é lúgubre. Lá foi um dos principais locais de prisão de presos políticos durante a ditadura militar. Sabem aquele período de 30 anos onde as forças armadas mandaram no país e quem reclamasse era preso e morto? Pois é, aquela área inteira ainda é deles, só foi cedida ao Estado para ser restaurado com nosso dinheiro. Esse navio me faz sempre lembrar da ditadura. Um navio de guerra atracado junto ao sítio histórico de fundação da nossa cidade. Por quê? Pra resgatar a memória de um período obscuro da nossa história? Não, ele é um memorial pra exaltar o grande trabalho de patrulha feito pela corveta através dos rios da Amazônia.

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Uma grande maré há 2 anos quase o leva ao fundo e danificou o píer. E quem pagou para ele ser consertado e voltar pra lá? Nós. E sabe o que acontece se um ribeirinho quiser encostar seu barquinho e descer pra passear na praça com a família? É proibido. Como permitimos esta interferência visual bélica no nosso principal sítio histórico? Tudo bem que durante um período de comemorações cívicas (urgh!) a Corveta Solimões ficasse por um período, mas transformá-la em um “museu” parte integrante do circuito cultural de museus do Feliz Lusitânia é inconcebível. Segundo consta essa corveta-museu é muito visitada e é um dos espaços que mais vendem ingressos, mas não é tão significativo a ponto que justifique esse monstro atracado ad infinitum, e no mesmo espaço que uma escultura do grande Osmar Pinheiro que remete a natureza amazônica e à poética dos rios.

É hora de reavaliar esse pacto sinistro com a Marinha do Brasil e mandar a corveta atracar em outros portos, já basta de mascarar a ditadura militar com memoriais obtusos e pretensamente cívicos. Essa corveta é um memorial ao nosso silêncio e à nossa incapacidade mandar os militares a merda pelo menos uma vez.

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