HAICAI: POESIA E IMAGEM

Paralelamente à exposição ocorrerá Mini-oficina de experimentação plástica: “Reciclagem e produção de papel artesanal”

Responsável: Bianca Shiguefuzi

Período: 07 à 23/04/10

Horário: 14:00 às 16:00hs

A mini-oficina repetir-se à em cada dia.

Às 3a. feiras: atendimento  ao público em geral e sem inscrição prévia (individualmente ou máximo 12 pessoas)

Às 4a., 5a. e 6a. feiras: atendimento aos grupos escolares e outras instituições que agendarem com antecedência pelo telefone 4009818/ Coordenação de Educação e extensão (máximo 30 pessoas)

Público:  crianças à partir de 05 anos acompanhadas por responsáveis, jovens, adultos e idosos.

Obs.: Pessoas surdas devem entrar em contato com Mizanara, tradutora intérprete em libras pelo email: mizanara_brasil@hotmail.com

Local: Varanda do Museu Casa das Onze Janelas

Rua Frei Caetano Brandão, s/ nº, Cidade Velha, Belém, PA.

Tel.: 40098823 e 40098821

http://museucasadasonzejanelas.blogspot.com

Prêmio Diário Contemporâneo de Fotografia

Premiados

Prêmio Diário Contemporâneo: Coletivo Parênteses (SP)

Prêmio Brasil Brasis: Octávio Cardoso (PA)

Prêmio Diário do Pará: Paulo Wagner Oliveira (PA)

Menção Honrosa

Felipe Nunes Pamplona (PA)

Flávio Cardoso de Araújo (PA)

Walda Marques (PA)

Gina Dinucci (SP)

Selecionados

Carlos Alexandre Dodoorian (São Paulo)

Alberto Bitar (PA)

Yuki Hori (SP)

Eliezer Souza Carvalho ( PA)

Mateus Sá Leitão de Castro Soares (PE)

Felipe Pereira Barros (SP)

José Eduardo Nogueira Diniz (RJ)

Eurico de Alencar Filho (PA)

João Alberto Menna Barreto Moura Jr (RS)

Celso de oliveira Silva (CE)

Pedro Motta (MG)

Kenji Arimura (SP)

Grupo UMCERTOOLHAR (SP)

Rodrigo Torres dos Santos (RJ)

Flavya Mutran (PA)

Haroldo Bezerra Saboia Filho (CE)

Sofia Dellatorre Borges (SP)

Flávio Damm (RJ)

SERVIÇO

Mostra Prêmio Diário Contemporâneo de Fotografia, de 30 de março a 30 de abril no Museu da UFPA (av. Governador José Malcher, 1192). Informações: (91) 3224-0871/ (91) 8421-5066 e no site www.premiodiariodefotografia.com.br. Realização: Diário do Pará – RBA. Apoio: Vale. 

Fonte: blog do Prêmio Diário Contemporâneo de Fotografia

Obra em Questão // BANZEIRO, de Marcone Moreira

BANZEIRO

Venho a alguns anos, desenvolvendo um trabalho que tem como uma das referências o  universo dos ribeirinhos.

Resido e trabalho em Marabá no Pará, cidade entrecruzada por dois grandes rios, o Tocantins e o Itacaiúnas, portanto o contato com esse ambiente é naturalmente constante.

O meu processo de pesquisa envolve o interesse sobre os estaleiros localizados às margens desses rios, para observar e recolher material destinados à produção do meu trabalho, o que me contaminou por essa visualidade.

Minha obra abrange várias linguagens, como a produção de pintura, escultura, vídeo, objeto, fotografia e instalação (www.marconemoreira.blogspot.com).

A realização desse projeto, a instalação BANZEIRO, é uma continuidade da minha pesquisa visual.

A palavra BANZEIRO significa em nossa região o constante movimento das águas, provocado tanto por uma embarcação a vapor, ou pela agitação natural das águas, situação recorrente nos rios amazônicos, chegando ao ponto de não ser recomendado a navegação, em alguns horários, devido o aumento do risco de naufrágio.

O trabalho será composto por 30 cavernames (peças curvas de madeira que dão forma ao casco das embarcações), distribuídos no piso do espaço expositivo em várias direções, de uma forma que remeta metaforicamente ao movimento revolto das águas.

As peças (cavernames) serão confeccionadas em Marabá, em um dos estaleiros às margens do rio Tocantins, local onde se concentram várias oficinas de construção e reforma de embarcações, assim valorizando o trabalho e o conhecimento desses mestres da carpintaria naval.  Além das fotografias, será produzido um vídeo para registro do processo de trabalho, desde a construção à exposição da obra.

a realização desse trabalho foi possivel através do Prêmio Marcantonio Vilaça/Funarte, 2009

Marcone Moreira

http://www.marconemoreira.blogspot.com

Blog Novas Medias?! entrevistas com artistas paraenses

Muito boa a iniciativa do blog Novas Medias?! de fazer entrevistas com artistas contemporâneos paraenses.

A primeira foi com Luciana Magno e a mais recente com Carla Evanovitch.

O Ricardo e o Bruno são artistas/pesquisadores muito inteligentes e que buscam sempre ampliar os limites da persepção em suas obras, e com o blog estão prestando um serviço para a memória da arte paraense que possui poucos canais de informação e difusão.

Novo Museu do Círio

Depois de alguns adiamentos parece que dia 15 de janeiro de 2009 será a inauguração da nova expografia do Museu do Círio, uma realização da Secult e Sistema Integrado de Museus e Memoriais, feita em parceria com o Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular (MinC) e a Associação dos Amigos dos Museus do Pará.

Sendo o Museu do Círio naturalmente um espaço de grande atração de público devido ser um grande memorial a maior festa religiosa do Brasil essa revitalização se fazia necessária para contemplar a diversidade e a especificidade de seu acervo, composto predominantemente por ex-votos de romeiros. A expografia anterior não refletia a dimensão e a complexidade simbólica do Círio, não passava de uma composição cênica de vitrines e plotagens que não estimula a reflexão muito menos a interação com o visitante.

O Museu do Círio é hoje o museu que mais reflete as diretrizes modernas de museus, pois interage com a comunidade e extrapola seu espaço físico. O Projeto Pontão de Cultura Acorda levou seus técnicos para diversos municípios do Pará cobrindo as diversas procissões em homenagem a Nossa Senhora de Nazaré que acontecem pelo estado, com oficinas de capacitação e registro das manifestações que resultou na exposição itinerante Nazaré de Todos Nós.

O Museu do Círio é certamente o mais paraense de todos os museus, e também o mais vivo e dinâmico.

Gabinete de Papeis da Exposição Traços e Transições da Arte Contemporânea Brasileira

Um conceito de exposição único no estado do Pará. É só dar uma passada na Sala Ruy Meira do Museu Casa das Onze Janelas e conferir.

Direção do vídeo: Ramiro Quaresma

Locução: Pedro Vianna

Obra em Questão // “Sine Die” de Nina Matos

A obra da semana achei no blog  paz575 galeria de arte, mantido por Wagner Lungov. Um texto sobre a obra da artista paraense.

sinedie-2005

Vi este quadro em 2006 na mostra Rumos do Itaú Cultural. Recentemente, por estar abrindo a galeria, entrei em contato com a autora, Nina Matos. Dados sobre ela e outras de suas obras podem ser encontrados aqui.

Vamos agora direto à “Sine Die”. É muito interessante como hoje a pintura usa recursos formais da fotografia/cinema e vice versa. Esta tela é um bom e muito bem sucedido exemplo. Por recursos formais quero dizer que ela utiliza nosso repertório de maneiras de dizer alguma coisa, através da forma como os elementos da cena são organizados e representados. Maneiras que aprendemos vendo filmes e fotos em situações que representavam perigo, alegria, melancolia, suspense, mistério… e depois estes mesmos significados são ativados quando o recurso formal é utilizado em situações novas, como quando olhamos para “Sine Die”.

A primeira coisa é o efeito de profundidade de campo como acontece com as lentes. Esse efeito resulta do fato de que, principalmente as lentes para situações de pouca luz, só conseguem dar nitidez em uma faixa bem estreita de distâncias. Quer dizer, pouca coisa fica no foco. Tudo que está mais distante ou mais próximo que a faixa de nitidez, fica desfocado. É claro que em pintura isso não é absolutamente necessário. Fica a critério do artista. Pintores do século XIV gostavam de fazer, por exemplo, alguém lendo uma carta no primeiro plano e pela janela podemos ver o que acontece no horizonte distante. Tudo com uma riqueza de detalhes impressionante. Bem, com lentes isso não é possível. Na pintura “Sine Die” Nina Matos escolheu, embora pintasse, fazer como se víssemos a cena através de uma lente. Observe que a palavra “céu” escrita no chão, no primeiro plano, está perfeitamente nítida. Ela usou inclusive a textura da tela para aumentar esta sensação. Também as marcas de giz e as frestas no cimentado estão bem “focados”. Dali pra frente tudo começa a ficar mais fluído e embaçado como em um típico exemplo de perda de profundidade de campo.

E por que isso? Bem, é aí começa a história. A mocinha, que seria afinal o tema do quadro, já está saindo do plano de foco, seus contornos vão como que se diluindo como o resto. Isso fica mais acentuado pelo fato dela estar de costas e claramente em movimento com o pé esquerdo ainda, ou quase, suspenso no ar. É como se tudo estivesse montado para um retrato convencional. Se ela tivesse ficado no céu, de frente para nós, estaria bonitinha na foto, com sua roupa de colegial, feliz, sorridente e bem focada . Mas ela está deixando o céu e começando uma nova empreitada com o pé esquerdo. Fico me perguntando se esse pé esquerdo, conhecido pela expressão popular de começar alguma coisa com o “pé esquerdo”, funciona também em uma forma visual. Fico na dúvida se ele ativa algum tipo de significação negativa em uma forma que não seja a escrita ou falada. O que é claro, em qualquer caso, é que ela nos virou as costas e foi embora. Aí vejo um outro recurso da linguagem de cinema. Há uma indicação de surpresa ou, se quiser, certa decepção com esse movimento da nossa jovenzinha pois o observador perdeu um pouco o equilíbrio. Veja que o horizonte, a rua e as linhas do chão não batem muito bem entre si. Parece que a câmera balançou um pouco. Esse é um recurso que os diretores de cinema usam para nos colocar na cena. Quando a existência de um narrador não faz parte da história e o observador igualmente tem um acesso sem explicação ao desenrolar da trama, temos o caso em que o público é tratado apenas como a “quarta parede” em relação ao palco. Este tipo de tratamento foi introduzido no teatro na época de, e discutida por, Diderot, quem criou a expressão “quarta parede”. Foi adotado nas artes cênicas inclusive no cinema mais tarde. Situação muito diferente é quando a câmera balança, quando está no nível dos olhos. Veja que a cabeça da mocinha está próxima e um pouco acima do horizonte. Estamos até um pouco abaixo dela. Esse recurso é clássico nas seqüências de perseguições. Para acentuar o desespero do perseguido: nós assumimos o ponto de vista do perseguidor. Mas aqui acontece ainda algo diferente: as barras escuras nas laterais do quadro e o ponto de vista mais baixo, dão um efeito de clausura, de barreira que nos impede de seguí-la ou detê-la. Ficou só a balançada que dá um efeito de incompreensão do gesto da mocinha.

Última coisa que eu vejo é que ela não está indo em direção ao vazio completo. É algo que claramente se opõe ao campo nítido, claro e bem marcado, onde se encontra o observador. Existe alguma coisa, como que um “escuro materializado”, algo no ar à frente dela. Parece que ela vai entrar em uma sombra com densidade desproporcional à iluminação da cena. A escuridão e as sombras como opostas ao céu e à luz, formam um daqueles pares de opostos muito fortes em nossa cultura representando o bem e o mal. A tela representa lindamente essa presença oposta, sempre mantendo o caráter de uma cena externa. Não é fácil pintar o escuro em pleno dia. Como resultado, o sentimento de perda ao vermos essa mocinha que nos deixa, é muito intenso. A incerteza de para onde ela vai nos enche de apreensão. A nossa impotência, criada pelas barras escuras que nos aprisionam, é angustiante.

Sine Die, é uma expressão em latim. Significa “sem data”. Nina diz que para ela a tela representa algo atemporal, sem localização determinada no tempo. Não é então um fato particular. Talvez possa ser lido como que algo recorrente, um sentimento ou situação que faz parte de nossas vidas, algo que todos experimentamos e que todos conhecemos. Muito bom! Uma tela para não se cansar de olhar.

Por Wagner Lungov in blog.paz575.com

Homenagem póstuma a Valdir Sarubbi pode acontecer em 2010 (por Luciana Medeiros in Holofote Virtual)

Matérial original publicada em Holofote Virtual, escrita por Luciana Medeiros.

Como este blog é dedicado ao artista Valdir Sarubbi não poderia deixar postar essa excelente entrevista com o filho de Sarubbi, Jonas Medeiros.

ACERVO2

A recente tragédia ocorrida com grande parte da obra de Hélio Oiticica, no Rio de Janeiro, reacendeu as discussões sobre conservação e aquisição de acervo de obras de arte de artistas brasileiros.


E isso só aguçou mais ainda na minha lembrança que a obra de um artista paraense, considerado um dos maiores nomes da arte contemporânea brasileira, ainda está por ser organizada de forma a ser disponibilizada a pesquisadores e amantes da arte. Caso estivesse vivo, Valdir Sarubbi, nascido em Bragança, interior do Pará, teria chegado, no último dia 10, aos 70 anos. Na foto acima, uma das obra do acervo Valdir Sarubbi.

“A qualidade que empregava em seus trabalhos era tão grande e tão refinada, que lhe renderam, inclusive, em 1999/2000 um prêmio-bolsa pela Pollock-Krasner Fondation de Nova York, da qual recebeu rasgados elogios”, escreveu o pesquisador de arte Rui Dell’Avanzi Jr. em seu blog (http://arteautentica.blogspot.com/), no dia 9 de outubro.

Infelizmente, o perdemos numa madrugada do mês de novembro do ano 2000. No próximo ano, esta perda completará uma década e muito do que ele deixou, inclusive de inéditos, permanece sob a guarda da família, mais precisamente do único filho que teve, Jonas Medeiros.

“A mapoteca do meu pai fica na sala do nosso apartamento, contendo desenhos, gravuras, pequenas pinturas em papel, além de rascunhos e esboços, estes de valor mais histórico. Também temos guardadas, pastas e mais pastas com documentos, reportagens, resenhas, críticas, ou seja, textos escritos pelo e sobre o meu pai. Pensamos que, todo esse arquivo deveria ser objeto de pesquisa de algum profissional sério, interessado em preservar, reconstituir e valorizar a obra do meu pai”, diz Jonas.

Jonas esteve em Belém, no início deste ano, para participar do Fórum Social Mundial. Aproveitou para apresentar a algumas pessoas o projeto “Sarubbi Gravador”, aprovado pela Lei Rouanet. Conversou com diretores de Museus e antigos amigos de Sarubbi, como Lucinha Chaves, Benedito e Maria Sylvia Nunes, entre outros.

GRAVURA1
No momento, ocupado com o Mestrado em Filosofia, que faz na capital paulista, onde mora, Jonas encontra dificuldades para fazer a captação do projeto. “Temos alguns contatos, mas os reflexos da crise ainda se sentem e também o meio dos departamentos de cultura e marketing das empresas são uma espécie de “mapa da mina”. Só quem é conectado tem acesso aos meios”, reclama.

Pintor, desenhista, gravador e professor, foi durante as décadas de 70 e 80, que o artista paraense, radicado em São Paulo, desenvolveu um trabalho intenso na técnica de gravura em metal, notadamente água-forte e água-tinta. Ao falecer, deixou em seu atelier, 25 placas gravadas em cobre e mais duas em estanho, matrizes de suas peças que se encontram bem conservadas (uma delas na foto acima).

O projeto prevê a edição de caixas de gravura, impressão de catálogo, com grande tiragem, e envio, em forma de doação, para instituições idôneas no Brasil e no exterior, de modo que cada instituto elabore seu modo de expor e de validar o registro de parte da obra de Sarubbi. Jonas já conta com cartas de aceitação de instituições como, a Pinacoteca de São Paulo, Museu Casa das Onze Janelas, em Belém, e Museu de Arte de Brasília, entre outras.

O projeto seria uma bela homenagem póstuma a Valdir Sarubbi que, em vida, produziu uma vasta obra, cujos traços e nuances são, declaradamente, reflexos de suas memórias e amor pela Amazônia.

GRAVURA2
Tomara que sejam obtidos os recursos de patrocínio. Seria legítimo que empresas não só de São Paulo, onde viveu muitos anos, mas principalmente aqui do Pará, sua terra natal, se interessassem. Escrevo com a esperança de que este importante projeto chegue ao conhecimento de muitos que poderiam se unir a esta empreitada. Os contatos com Jonas podem ser feitos através do e-mail: jonas.msm@gmail.com

É preocupante a demora na captação, o que pode custar a suspensão do certificado da Lei Rouanet, que viabiliza patrocínios de empresas privadas através da aplicação de uma parte do IR (imposto de renda) devido, em ações culturais. Isso levaria à perder a oportunidade de realizar o projeto e, mais do que isso, esta merecida homenagem a Valdir Sarubbi, em 2010. Acima, imagem de mais uma das gravuras.

Além das placas gravadas, Sarubbi deixou um grande acervo de telas que foi, logo após seu falecimento, cuidado por Marina Marcondes Machado, mãe de Jonas, que na época só tinha 15 anos. Abaixo, segue a entrevista que fiz com Jonas, pouco tempo depois de sua visita a Belém.

ENTREVISTA

No ano que vem, completam 10 anos de morte de seu pai. Quando foi que vocês começaram a cuidar do acervo deixado por ele?

Jonas Medeiros:
Na verdade, precisamos começar a remexer no acervo desde o primeiro momento, ainda “de luto”, para “desmontar” o atelier que meu pai mantinha na Rua Albuquerque Lins, no mesmo apartamento em que ele morava. Como o espaço era alugado, tivemos que lidar não só com o acervo, mas também com papéis, pastas, móveis, livros e LPs, de modo que, em três meses, esvaziamos o apartamento.

Com o que vocês foram se deparando?

Jonas Medeiros:
Minha mãe foi de fato a responsável pelo “desmanche” do atelier, criando alguns critérios para guardar tudo aquilo que parecesse de alguma maneira importante para a memória do meu pai, e elegendo amigos e conhecidos para doar móveis, telas em branco, fogão, geladeira e outras coisas do gênero. Na época eu tinha só 15 anos de idade.

61990004

O que vocês mantêm guardado?

Jonas Medeiros:
Hoje, no nosso apartamento, mantemos um quarto só para abrigar os quadros. Nós temos uma série de telas inéditas que meu pai estava pintando entre 1999 e 2000 (ao lado esquerdo, uma delas).

De nove anos pra cá, entramos em contato com colecionadores e também com amigos próximos de nós e do meu pai. Vendemos algumas obras, especialmente por necessidade financeira. Foi assim que a DAN Galeria adquiriu grande parte da série dos chamados “desenhos negros” e realizou, em 2006, uma exposição desses trabalhos que foi bem bonita e interessante.

A mapoteca do meu pai fica na sala do nosso apartamento, contendo desenhos, gravuras, pequenas pinturas em papel, além de rascunhos e esboços, estes de valor mais histórico. Também temos guardadas pastas e mais pastas com documentos, reportagens, resenhas, críticas, ou seja, textos escritos pelo e sobre o meu pai. Pensamos que todo esse arquivo deveria ser, algum dia, objeto de pesquisa de algum profissional sério, interessado em preservar, reconstituir e valorizar a obra do meu pai.

Quando nasce o projeto das gravuras e quais as parcerias que já estão fechadas?

Jonas Medeiros: Bom, o projeto de reedição póstuma das gravuras do meu pai nasceu da nossa vontade em resgatar a obra do meu pai, fazer com que ela circule no mundo, que as pessoas possam entrar em contato – em vez da obra ficar aqui, preservada mas isolada.

Quem nos apoiou bastante para começar a tocar este projeto foi o fotógrafo Juan Esteves, cerca de dois anos atrás. Ele nos ajudou a entrar em contato com a Graphias, atelier que será responsável pela impressão das gravuras, e com o Collegio das Artes, escritório parceiro para formatação do projeto para a Lei Rouanet.

O Juan também fotografou a impressão-piloto para nós, que já foi realizada, comprovando a boa qualidade das chapas que mantínhamos aqui em casa. É importante registrar que, antes do Juan nos convencer em apostar neste projeto, esta idéia já vinha nos rondando a mente, principalmente por causa dos conselhos valiosos que recebemos do Gileno Chaves, que além de grande amigo pessoal do meu pai, foi uma pessoa muito importante para a carreira dele.

GRAVURA3
Como funcionará a parceria com as instituições que receberão as caixas com as gravuras?

Jonas Medeiros:
A idéia do projeto envolve a parceria com nove museus brasileiros, o que o torna um projeto de alcance nacional. As parcerias consistem na doação de uma Caixa de Gravuras, contendo 27 imagens impressas postumamente, com o compromisso de cada museu organizar uma exposição de homenagem póstuma a Valdir Sarubbi, preservando adequadamente as gravuras em seu acervo.

Mais uma das gravuras, acima.

Também serão doados catálogos, em edição bilíngüe e com texto de apresentação do artista, gravador e professor universitário Cláudio Mubarac. Esse formato nos foi sugerido pelo Marcelo Araújo, diretor da Pinacoteca do Estado de São Paulo.

Nossa vontade é de que as exposições sejam feitas de forma relativamente simultânea, em diferentes cidades do Brasil, no ano de 2010, por volta dos meses de outubro e novembro, que são os meses do nascimento (se o meu pai estivesse vivo ele faria 70 anos neste ano) e do falecimento (10 anos de sua morte em 2010).

Quais são os museus e instituições envolvidas?
Jonas Medeiros: Já obtivemos o aceite de sete dos nove museus: Pinacoteca do Estado de São Paulo, Casa das Onze Janelas em Belém, Museu de Arte de Brasília, MAMAM do Recife, MARGS de Porto Alegre, MAC-Dragão do Mar em Fortaleza, MARCO em Campo Grande, e estamos esperando resposta definitiva do MAM do Rio de Janeiro e do MON de Curitiba.

Entre os achados no apartamento dele, havia muitos escritos. Você sabia que ele cultivava uma veia de escritor também?

Jonas Medeiros: Se eu conhecia bem esse lado do meu pai? Acho que não… Eu tenho muitas lembranças lá por 1999, 2000, que foram os dois últimos anos de vida dele, de acompanhar o processo de escrita. Ele, sentado no computador, imprimindo diferentes versões do texto, depois mandando cópias para pessoas que ele conhecia como a prima dele Maria Lúcia Medeiros, escritora que morava em Belém. O meu pai chegou a ilustrar algumas capas de livros dela.

Eu sempre tive muita dificuldade em ler os escritos dele, quero dizer, em vida, eu acho que não dei o valor que hoje eu gostaria de ter dado, talvez por ser muito novo e, agora, depois da sua morte, eu ainda acho doloroso pegar os textos dele pra ler.

sarubbi1
Como ele te vem na memória?

Jonas Medeiros:
Eu tenho uma memória daquelas que você não sabe se ela vem realmente de conversas que eu tive com o meu pai, ou então se ela já é fruto daquilo que li em entrevistas dele, sobre a vontade de ser escritor quando era jovem, uma “vontade de escrever como o Guimarães Rosa”.

Eu não sei se existem textos desses anos que sobreviveram, mas ele falava que, por ser um bom leitor, ele reconhecia que ele mesmo não era um bom escritor nessa época.

Acho que, com o passar dos anos, ele foi sentindo a vontade de se expressar de outras formas, para além das artes plásticas. O que eu posso te dizer sobre os escritos é que existem duas impressões em papel, que mantemos aqui em casa; uma série de contos chamada “Amanhecer, amanheceres” e um romance que se chama “Histórias paralelas”. Eu não sei muito bem dizer qual a relação entre um e outro, só sei dizer que os dois começam com uma dedicatória assim: “Para Jonas, estas memórias de minha cidade natal”.

Essa coisa de memória tem tudo a ver com o todo da obra, se for ver nesta própria dedicatória está contida uma referência ao “Quarteto de Alexandria”, do escritor Lawrence Durrell, que faz uma dedicatória quase igual a essa. A série do meu pai “Memórias de Alexandria”, que marca uma produção mais abstrata na virada da década de 1980 para a de 1990, é inspirada nessa série de livros, segundo ele mesmo uma “releitura sensível” destes livros. Então no final das contas a literatura sempre esteve como horizonte do meu pai, seja como leitor, como “releitor”, na forma da produção artística e também no final da vida, como escritor.

Depois de todos esses anos, eu e minha mãe ainda não conseguimos encaminhar a forma de tornar isso público, de modo que seja reconhecido, vamos ver se isso não vira um projeto pros próximos anos…

ACERVO


Como foi retornar a Belém? Você visitou várias pessoas ligadas diretamente ao teu pai ou à obra dele.

Jonas Medeiros: É verdade. Eu estive em Belém agora no final de janeiro e acho que não deu ainda pra digerir totalmente o que foi essa viagem, principalmente porque tudo foi muito intenso. Foram cerca de 10 dias que muitas coisas aconteceram.

Encontrei toda a minha família que eu não via há anos e conheci pessoas que eu não conhecia, além de estar com meus amigos de São Paulo, que foram mais ou menos na mesma época para o Fórum Social Mundial.

Na foto logo acima, obra do acervo Valdir Sarubbi.

O que aconteceu de mais importante?

Jonas Medeiros:
Acho que o mais importante, nesse caso, foi que a viagem me proporcionou assumir um papel mais ativo em relação ao cuidado do acervo do meu pai. Eu pude entrar em contato com dirigentes de diferentes museus de Belém, como a Nina Matos na Casa das Onze Janelas e a Jussara Derenji, no Museu da UFPA, além de ter encontrado a Lucinha Chaves, esposa do Gileno, na galeria Elf.

Também conversei com outras pessoas sobre a possibilidade de valorizar a obra do meu pai em Belém, como o Ronaldo de Moraes Rêgo e o Mariano Klautau Filho. Como estava para começar o período de captação de recursos por meio da Lei Rouanet para o projeto das gravuras, eu também estava interessado em sondar possíveis formas de patrocínio.

Tive a oportunidade de encontrar o prof. Benedito Nunes e a sua esposa Maria Sylvia Nunes, que foram grandes amigos do meu pai. Foi um prazer ter sido recebido na casa deles. Mas acho que o principal dessa viagem na verdade foi ter voltado pra Belém. Eu tinha ido pela primeira e única vez, em agosto de 1998, com o meu pai, obviamente. Na época, ele foi homenageado em diferentes ocasiões, aconteceram exposições em Belém e na cidade-natal dele, Bragança. Acho que esse foi o núcleo dessa viagem. Ter voltado sozinho, sem ele, foi muito intenso, de diferentes maneiras.

Armando Queiroz e o mapeamento da arte contemporânea na Região Norte

Do canal de vídeo da Itaú Cultural no youtube compartilho essa entrevista com Armando Queiroz, que viajou pelos estados da Região Norte pesquisando e difundindo conhecimento sobre a produção de artes visuais. Armando é artista incrivelmente inventivo, e vem se mostrando um sensível e criativo curador de arte.

Texto extraído do canal de vídeo da Itaú Cultural:

“Neste vídeo, Armando Queiroz conta a sua experiência de mapear nos estados da região Norte, como assistente curatorial do Rumos Artes Visuais 2008-2009.

O programa Rumos Itaú Cultural busca identificar e promover obras e artistas contemporâneos de todo o Brasil. Para chegar aos artistas, oito assistentes curatoriais percorreram as cinco regiões do país, vasculhando ateliês, escolas e galerias por quase seis meses. Como investigadores, eles conversaram com quem produz, ouviram críticos e professores e observaram muito a cena artística de cada lugar.

Os resultados foram exposições, cursos e bolsas de estudo.

Saiba mais em: http://www.itaucultural.org.br/index….”

Obra em Questão // “Senhora” de Osmar Pinheiro

SENHORA- OSMAR PINHEIRO- foto Galeria Virgilio

“Senhora”

Ano: 2005

Técnica: acrílica, óleo e encáustica s/ tela

Dimensão: 110 x 220cm

Do acervo recém adquirido pelo Museu Casa das Onze Janelas a primeira postagem do Obra em Questão. Do grande Osmar Pinheiro em homenagem ao Círio de Nazaré, no mês de outubro. Ela está no momento em exposição, é uma obra de grande impacto, pelo tamanho e pelatextura de tintas e químicas sobre a imagem. Como numa TV com estática, interferências, transmitindo um Círio que vem do nosso inconsciente. Osmar Pinheiro é mestre em subverter o imaginário amazônico em catarse artística.

Saiba mais sobre esse grande artista paraense:

Osmar PinheiroNascido em Belém do Pará, em 1950, Pinheiro mudou-se para São Paulo em 1986. Artista paraense, que veio da Arquitetura e começou a ganhar projeção na primeira metade dos anos 80, sendo um dos primeiros a conseguir inserir-se no circuito nacional de arte. Destacou-se na pintura e no desenho. Em 1988 recebeu a Bolsa Guggenhein Foundation de New York, para um período de trabalho de dois anos em Berlim (Alemanha). Entre as diversas participações em exposições, destacam-se as bienais de Quenca no Equador (1998), Havana (1986) e duas vezes a Bienal de São Paulo (1973/1992). Faleceu em 2006 na cidade de São Paulo .

“Conversas Ampliadas” arte contemporânea paraense nas Onze Janelas

CONVERSAS AMPLIADAS

O Museus Casa das Onze Janelas está divulgando um grande ciclo de conversas com artistas contemporâneos paraenses com desdobramento do projeto de ampliação de seu acervo, premiado no edital Marcantônio Villaça.

Segue abaixo a agenda e vamos acompanhar de perto esta oportunidade rara prar artistas e pesquisadores da arte.

“CONVERSAS AMPLIADAS”, que consiste na atividade de encontros e diálogo entre artistas visuais e o público, referente à mostra “Ampliação da Coleção de obras de Artistas Paraenses do Museu Casa das Onze Janelas” – Proposta de aquisição de acervo , contemplada no Edital Prêmio de Artes Plásticas Marcantonio Vilaça 2008 – FUNARTE/DEMU/IPHAN

Programação:

Horário: 19:00

Dia : 22/10/2009

Artistas: Jocatos, Margalho e Werley Oliveira.

Dia: 28 /10/2009

Artistas: Berna Reale, Lise Lobato e P P Condurú.

Dia: 04 /11/2009

Artistas: Armando Queiróz e Emanuel Franco.

Dia: 11 /11/2009.

Artistas: Acácio Sobral, Geraldo Teixeira, Jorge Eiró, Ruma e Ronaldo Moraes Rego

Local:Museu Casa das Onze JanelasSala Valdir Sarubbi ,

Praça Frei Caetano Brandão, s/n Tel.: 40098825.

Programação Educativa:

Milena Claudino ,Bianca Shiguefuzi, Cilene Nabiça

e Fagner Monteiro- 40098821- 40098823

O lúdico e o trágico: fogos de artifício em prédios históricos

Semana passada imagens de uma grande explosão em Santo André (SP) ganharam a mídia de todo país. Uma loja/depósito de fogos de artifício foi pelos ares e levou junto quase um quarteirão inteiro (foto abaixo). Pessoas morreram. Os culpados vão ser punidos com certeza, mas as autoridades que permitiram a existência dessa bomba-relógio junto à residências familiares será que vão? E não foi um fato isolado, inumeros casas semelhantes já foram noticiados. Não era um bairro de centro, nem tombado, mas vidas são mais importantes que qualquer coisa.

cidades_24091537

Uso esse episódio como exemplo de uma situação absurda aqui em nossa cidade. Em pleno centro histórico, no sítio mais importante da nossa cidade, onde existem 5 dos nossos museus (Onze Janelas, Arte Sacra, Forte, Círio e MIS), às proximidades de duas de nossas principais igrejas (Sé e Santo Alexandre), duas lojas de fogos de artifício estão tranquilamente instaladas. Pouco importa pra mim que elas tem alvará, extintores e tudo mais, simplesmente elas não deveriam estar ali. Essa convivência de fogos de artício armazenados e à venda com acervos históricos é um crime patrimonial. Nesse mesmo casario ficava instalado o DPHAC, orgão do estado que cuida da preservação de nosso patrimonio histórico, artístico e cultura, agora foram para o Palácio Lauro Sodré. A Fumbel fica a coisa de 100 metros. As duas lojas que vendem fogos também vendem “um grande sortimento” de quinquilharias altamente inflamáveis. Para não termos que noticiar uma tragédia devemos rever essa concessão que permite a existência desse absurdo. Vamos rezar e cuidar de Santo Alexandre pois Santo André foi pros ares.

PICT0036

Feliz Lusitania

Prólogo

Até acho bonito os fogos de artifício iluminando o céu, aquela coisa lúdica, que remete à origem do universo, big bang, algo assim. Penso nas senhoras e nas crianças encantadas com o coração em júbilo quando o ceu explode em cores. É bonito? É.  Vai continuar existindo sempre? Com certeza. Fogos vão continuar mutilando pessoas todo ano? Sim. Vão acontecer outras explosões de depositos legais e clandestinos? Silêncio.

Prêmio Secult de Artes Visuais

prêmio SIM de Artes Visuais 2008 surge em 2009 como novo nome, Prêmio Secult de Artes Visuais, e contemplando apenas 08 projetos, na primeira edição foram 16. A ajuda de custo passou dos R$ 6.500 da edição passada para R$ 9.800, mais exequível para os artistas. A quantidade de contemplados pode ter diminuído mas continua sendo uma das poucas oportuidades para os artistas visuais materializarem suas exposições. No ano de 2008 foram mais de uma exposição por mês, fato inédito e marcante na história das artes no Pará.  Foram 16 propostas artísticas, de um total de 104 inscrições, que proporcionaram ao público experiências visuais e sensoriais múltiplas. Os projetos artísticos premiados pelo Prêmio SIM de Artes Visuais 2008 foram escolhidos pelo júri formado por Marisa Morkazel, Orlando Maneschy e Armando Queiroz , e idealizado e coordenado pela diretora do Museu Casa das Onze janelas, Nina Matos, artista visual e arte-educadora. Os projetos foram montados em diversas salas expositivas do SIM, no MHEP, Sala Antonio Parreiras e Sala Manoel Pastana e Salão Transversal; Onze Janelas, Laboratório das Artes, Sala Gratuliano Bibas e Sala Valdir Sarubbi; e Galeria Fidanza no Museu de Arte Sacra. Foram contemplados 11 projetos locais e 5 de outros estados, recebendo R$ 6.500,00 para custos relativos a realização da exposição e a infra-estrutura de montagem e divulgação por conta da Secult. Vamos comentar aqui todas as exposições do Prêmio SIM de Artes Visuais e, se possível, entrevistas com os artistas e da comissão de seleção do prêmio.

Esses foram os projetos contemplados em 2008:

Projetos Paraenses
“Retrospectiva 20 anos” de Jair Junior

“Alma” – Margalho Açu

“Espaços Autônomos” – Bruno Cantuária e Ricardo Macedo

“Ifigênia na sala dos passos perdidos” – Maria Christina

“Marca texto urbano” – Ingrid Táskya, Edilene Pamplona, Amanda Jhones

“Corporaturas” – João Cirilo, Éder Oliveira, Flávio Araújo, Milton Ribeiro e Werley Souza

“Finisterra” – Mariano Klautal

“Cidade Rede” – Val Sampaio

“Vazio” – Berna Reale

“Onde as Borboletas não voam” – Daniele Valente, Vitor Souza Lima e Melissa Barbery

“Cidades Vulneráveis” – Carla Evanovitch

Projetos de outros Estados:
“Plus Ultra” – Oriana Duarte – SP

“Janelas Para o Mundo” – proponente Álvaro Seixas /curadoria Marisa Florido Cesar – RJ

“O Silêncio do Martelo” – Fabrício Carvalho – MG

“Estado-escuta/estado-cegueira” – Raquel Stolf – SC

“Exposição Portátil Coleção” – Regina Mellim – SC

Para os artistas interessados segue o pdf com o edital completo para a inscrição de projetos para o Prêmio Secult de Artes Visuais 2009,

é só clicar na logo e baixar.

Logo Premio Secult

 

A catedral e o caos

Foi entregue à sociedade paraense no primeiro dia do mês de setembro de 2009 as obras de restauro e revitalização da Catedral Metropolitana de Belém, a Sé para os íntimos. E intimidade é exatamente o termo pra definir este prédio histórico que é um referencial nas reminiscências de todos que moram ou passaram pela nossa cidade de Belém. A Sé vista de quem chega de barco é uma visão surreal. Hoje com a pintura revitalizada ao sol do equador é quase uma aparição de tão alva e radiante. À noite com a nova iluminação pontual e em cores com feixes de LED está moderna e utilizando consumo consciente. Uma obra que será certamente um marco em se tratando de restauro de igrejas no Brasil e no mundo. Toda essa beleza e imponência impactam ainda mais no momento de descaso e caos urbano pelo qual passa todo o centro histórico.

O projeto de restauro iniciou na gestão passada do governo do Estado e foi sabiamente priorizado, tendo garantidos seus recursos. Outro fator que ainda não está bem contemplado é a questão de preservação do entorno, mas é deveria ser um trabalho que englobaria o Governo do Estado, a Prefeitura de Belém. Persistem por todas as calçadas adjacentes os postes de luz com suas caóticas fia e a múltiplos setores da sociedade. A Secretaria de Cultura faz a parte que lhe cabe, resta às outras Secretarias e à população contribuírem com suas parcelas de responsabilidade. Ainda persiste o trafego de veículos pesados, apesar de existir uma lei que limita em horários os veículos de carga não se leva em conta as linhas de ônibus urbano em toda a área restaurada, estes veículos bem mais prejudiciais às estruturas, e por vezes ocupando mais de 50% nas estreitas calçadas, constituindo infração e um perigo para os transeuntes e portadores de necessidades especiais. O casario da ladeira entre o Forte do Presépio e Santo Alexandre está ainda ocupado por cortiços e uma das casas já caiu. A Feira do Açaí persiste no ambiente de subemprego, violência, álcool, prostituição e drogas, tudo visto do mirante do Forte do Presépio. O poder judiciário em todas suas esferas ocupa inúmeros imóveis na área, e isso não aumenta as perspectivas de solução dos problemas apenas criam outros por sobrecarregarem de veículos toda a área desde a Rua João Diogo até quase a Avenida Tamandaré. Não entrarei na questão dos ambulantes e bancas de pirataria, pois é endêmico, tal um parasita que se reproduz e destrói o hospedeiro, no caso nossa cidade. São incontáveis situações de involução urbana que transformam iniciativas como a revitalização da Sé em ilhas de preservação cercadas por ignorância e abandono por todos os lados.

As obras de revitalização do Patrimônio histórico feitas no Núcleo Feliz Lusitânia (Igreja de Santo Alexandre, Arcebispado, Casario da Padre Champagnat, Casa das Onze janelas e Forte do Presépio), o Palácio Lauro Sodré e a Catedral Metropolitana de Belém são obras hoje essenciais para Belém do ponto de vista histórico e turístico, acabam por ser encaradas pela grande maioria da população como obras elitistas em cujos eles espaços não são bem-vindos. O tema é vasto e aberto à discussão para toda a sociedade.
Esses vídeos pescados no Youtube, um institucional e outro feito por independentes,  exemplificam a situação.

A grandiosidade artística e arquitetônica:

O caos urbano:

A ditadura militar atracada no Feliz Lusitânia

O que você acha daquele navio militar ancorado eternamente no píer da Casa das Onze Janelas? Em minha opinião ele deveria ir para um porto da Marinha do Brasil mais próximo, ou de preferência bem distante, o quanto antes. Eis os motivos que me levam a pensar desta forma. Antes do processo de revitalização do Núcleo Feliz Lusitânia toda a área que hoje compreende o Forte do Presépio e Casa das Onze Janelas era um quartel militar dos mais horrendos, e sabemos que proximidade de quartel militar geralmente é lúgubre. Lá foi um dos principais locais de prisão de presos políticos durante a ditadura militar. Sabem aquele período de 30 anos onde as forças armadas mandaram no país e quem reclamasse era preso e morto? Pois é, aquela área inteira ainda é deles, só foi cedida ao Estado para ser restaurado com nosso dinheiro. Esse navio me faz sempre lembrar da ditadura. Um navio de guerra atracado junto ao sítio histórico de fundação da nossa cidade. Por quê? Pra resgatar a memória de um período obscuro da nossa história? Não, ele é um memorial pra exaltar o grande trabalho de patrulha feito pela corveta através dos rios da Amazônia.

corveta 02

Uma grande maré há 2 anos quase o leva ao fundo e danificou o píer. E quem pagou para ele ser consertado e voltar pra lá? Nós. E sabe o que acontece se um ribeirinho quiser encostar seu barquinho e descer pra passear na praça com a família? É proibido. Como permitimos esta interferência visual bélica no nosso principal sítio histórico? Tudo bem que durante um período de comemorações cívicas (urgh!) a Corveta Solimões ficasse por um período, mas transformá-la em um “museu” parte integrante do circuito cultural de museus do Feliz Lusitânia é inconcebível. Segundo consta essa corveta-museu é muito visitada e é um dos espaços que mais vendem ingressos, mas não é tão significativo a ponto que justifique esse monstro atracado ad infinitum, e no mesmo espaço que uma escultura do grande Osmar Pinheiro que remete a natureza amazônica e à poética dos rios.

É hora de reavaliar esse pacto sinistro com a Marinha do Brasil e mandar a corveta atracar em outros portos, já basta de mascarar a ditadura militar com memoriais obtusos e pretensamente cívicos. Essa corveta é um memorial ao nosso silêncio e à nossa incapacidade mandar os militares a merda pelo menos uma vez.

Boteco das 11: comida estragada x patrimônio histórico

O Ministério público do Estado encontrou o que já se sabe há tempos, pelo menos para os funcionários do Museu que compartilha o mesmo espaço que esse restaurante, leia notícia que saiu no Amazônia:

O Ministério Público Estadual ingressou com ação civil pública contra o bar, restaurante e pub Boteco das Onze, situado na praça Frei Caetano, s/nº, no bairro da Cidade Velha, pela comercialização de pratos e petiscos com produtos de origem duvidosa, sem registro e ainda com validade vencida. A constatação foi feita em vistoria realizada em junho deste ano em ação de fiscalização rotineira pelos fiscais do Procon, agentes da Vigilância Sanitária (Devisa) e policiais civis da Delegacia do Consumidor.
Na ação, o promotor Marco Aurélio Lima do Nascimento requereu liminar para impedir que o restaurante não armazene e não exponha à venda refeições preparadas com produtos de origem animal clandestina, não registrados junto aos órgãos competentes, ou por via inversa. Em caso de descumprimento, o bar e restaurante será multado em 400 Unidades Fiscais de Referência (Ufir), por cada quilo de produto de origem animal clandestino encontrado no estabelecimento pela Vigilância Sanitária ou Procon.
O promotor também pede ‘indenização por dano moral coletivo causado à sociedade de consumo, a ser depositado no Fundo Estadual de Direitos Difusos e Coletivos, no valor de R$ 26.815,32, correspondente a 400 Ufir, pelos 63,388 kg de produto impróprio ao consumo encontrados no estabelecimento. Os pedidos estão embasados no artigo 57 do Código de Defesa do Consumidor.
Inspeção – Durante a vistoria na câmara frigorífica do Boteco das Onze, os fiscais flagraram a presença de produtos clandestinos e com prazo de validade vencido. Foram 22 kg de queijo sem marca e sem registro nos órgãos competentes; 37,3 kg de queijo coalho, marca ‘Fazenda Aroeira’, sem registro nos órgãos competentes; 4 kg de margarina, marca ‘grandina creme’, com validade vencida há mais de um mês.
Segundo a ação do MPE, a empresa foi autuada pelo Procon por comercializar mercadoria imprópria para o consumo, ‘causando enorme risco à saúde do consumidor’, bem como praticou ‘ilícito civil, causando dano moral a toda coletividade’. Além do que, o promotor entende que ‘os produtos clandestinos como os encontrados no interior do estabelecimento, além dos sérios riscos à saúde pública, acarretam enormes prejuízos à economia de nosso Estado, pois concorrem de forma predatória com a nossa indústria formal, que, por sua vez paga a duras penas seus impostos e obrigações sociais’. (fonte: Amazônia via Espaço Aberto)

Esse é apenas um dos problemas acarretados por este restaurante. Ele é fruto de uma decisão equivocada de aliar gastrônomia e arte no mesmo espaço. Instalado no mesmo prédio que o Museu Casa das Onze Janelas, este restaurante armazena grandes quantidades de alimento, que por consequência atrai ratos e insetos, prejudicando todo o trabalho de conservação e manutenção das obras de arte guardadas e expostas no local. Os funcionários do Museu e o público em geral utilizam o mesmo banheiro, localizado no pátio posterior, por onde todos circulam livremente. O banheiro além disso é vizinho da sala da direção do Museu, compremetendo totalmente a segurança do espaço. Sabemos que uma cozinha industrial utiliza fogões a gás e em grande quantidade, e num prédio de 200 anos é um perigo eminente. A sala Valdir Sarubbi nos altos é sempre invadida pelo odor das frituras dos salgados do Boteco, que borrifa um odor de gordura em todo o ambiente.  É hora de rever esse uso compartilhado deste prédio que foi projetado por Antônio Landi e é o principal museu de arte contemporânea do Norte. A gestão é feita ela Pará 2000, hoje com o Partido Verde e o Museu Casa das Onze Janelas é parte do Sistema Integrado de Museus e Memórias da Secult. Uma sugestão: transferir este restaurante pra um dos inúmeros imóveis antigos na Cidade Velha e do Centro Comercial e instalar no lugar a Reserva Técnica e na Sala de Educadores do Museu. E mais um banheiro por favor…