Artistas visuais paraenses em expedição

 

“Rio/ de muitos nomes/ Ser/ de muitas formas e fomes” esse trecho do livro “Porantim”, do poeta e professor de estética João de Jesus Paes Loureiro, foi a nascente desse projeto que tem na relação das cidades com seus rios e as periferias em suas margens sua proposta artística. Segundo Ramiro Quaresma, curador e idealizador do projeto “a arte como uma expedição sempre foi um projeto-sonho nosso, quando começamos o blog Xumucuís (do tupi, sussurro das águas). Depois de três edições do Salão de Arte Digital, vamos concretizar esse projeto criando um hiper_espaço conectando o Pará e a Paraíba, não apenas no ciberespaço, mas em uma experiência vivencial de múltiplas linguagens artísticas”.

 

O projeto «Hiper_Espaço Xumucuís [Guamá, Jaguaribe]», contemplado no Programa Rede Nacional Funarte Artes Visuais 10a Edição, fará um intercâmbio entre artistas visuais do estado do Pará e da Paraíba e tem na exposição «Sussurro dos Rios: Guamá/Jaguaribe» sua mostra de resultados e nas experimentações em grafite + pixo, fotografia + estêncil, pintura + intervenção e live cinema + mapping, com jovens artistas/instrutores paraenses. A exposição será pensada e montada de forma colaborativa na oficina “Curadoria em Multimeios” no próprio espaço expositivo. A primeira etapa acontece em João Pessoa na Paraíba no mês de maio em vários espaços da cidade e em junho em Belém no processo inverso. “Conhecemos pela internet vários artistas e produtores paraibanos, constatamos que pouco ou nada se sabia dos caminhos das artes visuais um do outro e esse projeto de intercâmbio pretende criar um link de arte e vida entre os participantes” diz Deyse Marinho, museóloga e coordenadora de produção do projeto.

A exposição tem curadoria de Ramiro Quaresma e Dyógenes Chaves, curadores do Pará e da Paraíba respectivamente, com os artistas Fábio Graf, Jeyson Martins, João Cirilo e Rodrigo Sabbá, que se juntarão a artistas paraibanos no projeto a partir das vivências em João Pessoa. A proposta curatorial é juntar artistas de múltiplas linguagens, que trabalhem em processos híbridos de criação artística com intervenção urbana, e proporcionar o surgimento de obras, individuais e coletivas, das oficinas no espaço Energisa, nas vivências no Espaço Mundo, para a exposição na Galeria da Estação Cabo Branco a ser aberta em 13 de maio de 2014. Em junho será a segunda etapa do projeto em Belém, onde artistas paraibanos selecionados entre as vivências virão a Belém para um novo ciclo de oficinas e exposição. Todas as atividades do evento são gratuitas. A única oficina com pré-requisitos de currículo para inscrição é “Curadoria e Multimeios”, as outras são abertas a todos os interessados com idades a partir dos 14 anos.

Projeto Paraiba Final Novo

«Hiper_Espaço Xumucuís [Guamá, Jaguaribe]» é uma realização Xumucuís, com apoio institucional da Prefeitura de João Pessoa, Estação Cabo Branco, Energisa, Espaço Cultural Energisa e Espaço Mundo, parceria Fora do Eixo e Varadero, em uma realização Programa Rede Nacional Funarte Artes Visuais 10a Edição, Funarte, Ministério da Cultura e Governo Federal.

 

 

SERVIÇO

 

Oficinas

 “Pintura + Intervenção Urbana” com João Cirilo

05 a 09/05 das 09 às 12h – Espaço Energisa

20 vagas

 

“Grafite + Pixo” com Fábio Graf

05 a 09/05 das 09 às 12h – Espaço Energisa

20 vagas

 

“Pinhole + Estêncil” com Jeyson Martins

05 a 09/05 das 14 às 17h – Espaço Energisa

20 vagas

 

“Live Cinema + Mapping” com Rodrigo Sabbá

05 a 09/05 das 14 às 17h – Espaço Energisa

20 vagas

 

“Curadoria em Multimeios” com Ramiro Quaresma

12 a 13/05 das 9 às 12h e 14 às 18h – Estação Cabo Branco

20 vagas

Bate-papo (Pós-tv) e vivências – Espaço Mundo

07, 08 e 09/05 a partir das 19h.

 

Exposição – Estação Cabo Branco

Abertura – 13 de Maio às 19h

 

Informações

xumucuis@gmail.com / (91) 8239 2476

 

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Exposição “Na Passagem da Corda”, 1999 – Coletiva Anual da Associação dos Artistas Plásticos do Pará

coracao armandoEm 1999 a Associação dos Artistas Plásticos do Pará montou uma exposição coletiva temática sobre o Círio de Nazaré, nomes como Armando Queiroz, Emanuel Franco, Maria Christina, Nina Matos, Octávio Cardoso, entre outros. A exposição aconteceu no Museu de Arte de Belém, com apoio da Prefeitura de Belém, e foi um desdobramento do II Encontro dos Artistas Plásticos do Pará. [imagem: Coração, de Armando Queiroz]

Intervenção urbana reflete a ditadura militar em Belém 48 anos depois

Há quarenta e oito anos a cidade Belém também sofria as consequências do golpe militar iniciado em Minas Gerais. O General Ramagem, Chefe do Comando Militar da Amazônia na época, ordenou a prisão de centenas de políticos, estudantes e trabalhadores a partir do dia primeiro de abril de 1964. Os presos foram levados para diversos pontos de Belém que hoje estão desativados ou tem finalidade completamente diferente, como é o exemplo da Casa das Onze Janelas, que atualmente é ponto turístico da capital.

Esse quadro de violência e censura caiu no esquecimento. Para alertar sobre o grave processo político estabelecido pós-64, o historiador e fotógrafo Michel Pinho interviu no espaço urbano, identificando com placas que imitam sinalização de trânsito os locais onde as prisões e torturas eram executadas. A escolha do 1º de abril, Dia da Mentira, não foi por brincadeira, ela é a data verdadeira do aniversário de 48 anos do golpe.

Sua intervenção foi um grito em protesto contra o terror dos assassinos e torturadores da ditadura em Belém, e buscou alertar para o caráter ditatorial e ilegal do regime implantado no país inteiro. “Não podemos e nem devemos esquecer, a democracia brasileira é uma conquista recente. Os crimes que os agentes do Estado cometeram como estupro, sequestros seguidos de morte e ocultação de cadáveres são hediondos. A anistia foi promulgada em 1979 pelo general Figueiredo e impede a prisão desses homens. Temos que rever essa decisão”, sentencia Michel.

Embora o registro fotográfico tenha se limitado apenas a lugares mais conhecidos como a Casa das Onze Janelas, Largo da Trindade, Casa do Estudante Universitário do Pará, além das avenidas Nazaré e José Malcher, os centros de tortura e prisão na capital paraense foram mais numerosos.

Até hoje não há a versão correta da história e da natureza ditatorial do regime de 1964, seu caráter ilegal e inconstitucional pouco são mencionados, e sua atuação em Belém pouco foi refletida ou questionada nesses 48 anos completados. “A intenção é motivar que os leitores da ação busquem informações, perguntem sobre o silêncio ensurdecedor sobre a ditadura em Belém do Pará.” finaliza o historiador.

A intervenção foi registrada e parte das fotografias pode ser vistas no endereço: http://www.michelpinho.com.br/territorio-do-medo-a-ditadura-militar-em-belem/

Texto: Deborah Cabral

Paulo Chaves fala sobre novos projetos para gestão

Segue abaixo uma entrevista com Paulo Chaves, Secretário de Cultura do Estado do Pará, concedida ao jornal Diário do Pará.

 “Obrigado. Mas ainda não sei se devo agradecer.” Foi assim que Paulo Chaves Fernandes, recém-nomeado secretário de Estado de Cultura do governo Simão Jatene (PSDB), recebeu os parabéns por telefone. Dizendo-se grato por ocupar novamente o cargo (Paulo Chaves foi titular da Secult por doze anos consecutivos, de 1995 e 2006), ele faz duras críticas ao governo de Ana Júlia Carepa (PT) e aponta alguns caminhos para a Secult.

Acompanhe a entrevista:

P: Qual será a grande meta de sua gestão?

R: A grande meta é retomar caminhos que estávamos traçando. Não só na área da cultura, mas contribuir para o governo como um todo, para que o Estado retome o desenvolvimento que nós queremos. Não é uma visão específica da Secretaria da Cultura. Sou partidário do PSDB, assumo essa posição como uma peça que trabalha em conjunto com o todo do governo. A meta agora é “vamos pensar juntos”. Em relação à cultura, vamos retomar a linha de trabalho de onde paramos no governo anterior. É a hora de avaliar os caminhos já trilhados. Veja o estado dos espaços criados pela nossa gestão. Um triste exemplo é o Mangal das Garças, que está abandonado. Outro é a Estação das Docas, onde o serviço decaiu tanto que essa foi a primeira vez sem réveillon no local. A Pará 2000 (Organização Social ligada ao governo do Estado, que atua como gestora do Complexo Feliz Luzitânia, da Estação das Docas e do Mangal das Graças) foi deixada para nós com uma dívida de quase 5 milhões de reais. Temos fornecedores com mais de quatro meses sem receber. São coisas que não dá para adiar, senão vira uma bola de neve. Existe uma urgência de revitalizar esses espaços que geram renda, emprego, turismo e dão uma levantada no ego da população. Infelizmente, ao invés de pensarmos no que fazer de novo para a nossa gestão, teremos que enxugar despesas, diminuir custeios e honrar os compromissos de imediato.

P: Além de arrumar a casa, não há mais nada em vista?

R: Ainda é cedo para firmar compromissos, mas posso adiantar que a menina dos olhos do governador é o Parque Ambiental do Utinga. Nossa intenção é preservar aquela região de manancial, que tem um papel importantíssimo no abastecimento da capital, mas sofre constantes invasões devido à expansão urbana. Queremos recuperar o espaço por meio do uso social. No plano que desenvolvemos para o local, pretendemos criar um aquário de grande porte para peixes de rio e um teleférico, que além de nos proporcionar um belo passeio, irá ajudar no controle do espaço. Além disso, queremos estimular grandes exposições artísticas e audiovisuais, buscando sempre a integração da natureza com a obra. Seria uma especie de galeria a céu aberto, onde seriam expostas intervenções urbanas. Para isso precisamos ter recursos que ainda não sei se dispomos. Da parte de arquitetura e urbanismo, a Secult pode tirar de letra, pois dispomos de técnicos e infra-estrutura. Mas o projeto vai demandar um estudo de topografia e de impactos ambientais.

P: Existe alguma previsão do começo das obras?

R: Ainda estou no escuro. Não antecipei as coisas, mesmo porque não tinha sido nomeado oficialmente. Deixei o Simão muito à vontade. Apesar de estar ao lado dele durante toda a campanha, nunca me senti credor pelo meu apoio. Trabalho por convicção ao partido e à figura dele. Agora que estou de volta ao cargo, começo a pensar em tudo. Ainda não falei com o governador, mas uma das sugestões é revitalizar o Cemitério da Soledade, em parceria com a Prefeitura, transformando-o num parque. Como sei que a dívida é grande em todas as áreas, no primeiro ano não será possível investir muito.

P: Muitos consideram os grandes projetos de sua gestão como elitistas. Qual sua opinião?

R: Não é uma opinião da população, pode ter certeza. Se estamos de volta ao governo, é porque o povo queria trilhar esse caminho novamente. Se for consultar a população em relação a esses espaços, você vai ver a insatisfação em relação à forma com que estão sendo mantidos. Eu sou uma testemunha disso. Todos me paravam na rua e reclamavam de como era grande o descaso com o patrimônio da cidade. Além disso, meu trabalho não se resumiu a grandes obras. A Lei Semear foi criada durante a minha gestão, grandes eventos como o Festival de Ópera e a Feira do Livro foram pensados pelo governo do PSDB. Hoje em dia a Feira do Livro está completamente descaracterizada, é um furdunço de show e mais nada. Havia lançamento de obras de autores locais, publicações de livros, CDs. Não se pode confundir qualidade com elitismo. Essa é uma visão caolha, de má-fé.

P: O senhor não vê nada de positivo na gestão do PT?

R: O que eu vi foi um retrocesso do Pará. O que foi feito de concreto eu não consigo enxergar.

(Fonte: Diário do Pará)

Homenagem póstuma a Valdir Sarubbi pode acontecer em 2010 (por Luciana Medeiros in Holofote Virtual)

Matérial original publicada em Holofote Virtual, escrita por Luciana Medeiros.

Como este blog é dedicado ao artista Valdir Sarubbi não poderia deixar postar essa excelente entrevista com o filho de Sarubbi, Jonas Medeiros.

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A recente tragédia ocorrida com grande parte da obra de Hélio Oiticica, no Rio de Janeiro, reacendeu as discussões sobre conservação e aquisição de acervo de obras de arte de artistas brasileiros.


E isso só aguçou mais ainda na minha lembrança que a obra de um artista paraense, considerado um dos maiores nomes da arte contemporânea brasileira, ainda está por ser organizada de forma a ser disponibilizada a pesquisadores e amantes da arte. Caso estivesse vivo, Valdir Sarubbi, nascido em Bragança, interior do Pará, teria chegado, no último dia 10, aos 70 anos. Na foto acima, uma das obra do acervo Valdir Sarubbi.

“A qualidade que empregava em seus trabalhos era tão grande e tão refinada, que lhe renderam, inclusive, em 1999/2000 um prêmio-bolsa pela Pollock-Krasner Fondation de Nova York, da qual recebeu rasgados elogios”, escreveu o pesquisador de arte Rui Dell’Avanzi Jr. em seu blog (http://arteautentica.blogspot.com/), no dia 9 de outubro.

Infelizmente, o perdemos numa madrugada do mês de novembro do ano 2000. No próximo ano, esta perda completará uma década e muito do que ele deixou, inclusive de inéditos, permanece sob a guarda da família, mais precisamente do único filho que teve, Jonas Medeiros.

“A mapoteca do meu pai fica na sala do nosso apartamento, contendo desenhos, gravuras, pequenas pinturas em papel, além de rascunhos e esboços, estes de valor mais histórico. Também temos guardadas, pastas e mais pastas com documentos, reportagens, resenhas, críticas, ou seja, textos escritos pelo e sobre o meu pai. Pensamos que, todo esse arquivo deveria ser objeto de pesquisa de algum profissional sério, interessado em preservar, reconstituir e valorizar a obra do meu pai”, diz Jonas.

Jonas esteve em Belém, no início deste ano, para participar do Fórum Social Mundial. Aproveitou para apresentar a algumas pessoas o projeto “Sarubbi Gravador”, aprovado pela Lei Rouanet. Conversou com diretores de Museus e antigos amigos de Sarubbi, como Lucinha Chaves, Benedito e Maria Sylvia Nunes, entre outros.

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No momento, ocupado com o Mestrado em Filosofia, que faz na capital paulista, onde mora, Jonas encontra dificuldades para fazer a captação do projeto. “Temos alguns contatos, mas os reflexos da crise ainda se sentem e também o meio dos departamentos de cultura e marketing das empresas são uma espécie de “mapa da mina”. Só quem é conectado tem acesso aos meios”, reclama.

Pintor, desenhista, gravador e professor, foi durante as décadas de 70 e 80, que o artista paraense, radicado em São Paulo, desenvolveu um trabalho intenso na técnica de gravura em metal, notadamente água-forte e água-tinta. Ao falecer, deixou em seu atelier, 25 placas gravadas em cobre e mais duas em estanho, matrizes de suas peças que se encontram bem conservadas (uma delas na foto acima).

O projeto prevê a edição de caixas de gravura, impressão de catálogo, com grande tiragem, e envio, em forma de doação, para instituições idôneas no Brasil e no exterior, de modo que cada instituto elabore seu modo de expor e de validar o registro de parte da obra de Sarubbi. Jonas já conta com cartas de aceitação de instituições como, a Pinacoteca de São Paulo, Museu Casa das Onze Janelas, em Belém, e Museu de Arte de Brasília, entre outras.

O projeto seria uma bela homenagem póstuma a Valdir Sarubbi que, em vida, produziu uma vasta obra, cujos traços e nuances são, declaradamente, reflexos de suas memórias e amor pela Amazônia.

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Tomara que sejam obtidos os recursos de patrocínio. Seria legítimo que empresas não só de São Paulo, onde viveu muitos anos, mas principalmente aqui do Pará, sua terra natal, se interessassem. Escrevo com a esperança de que este importante projeto chegue ao conhecimento de muitos que poderiam se unir a esta empreitada. Os contatos com Jonas podem ser feitos através do e-mail: jonas.msm@gmail.com

É preocupante a demora na captação, o que pode custar a suspensão do certificado da Lei Rouanet, que viabiliza patrocínios de empresas privadas através da aplicação de uma parte do IR (imposto de renda) devido, em ações culturais. Isso levaria à perder a oportunidade de realizar o projeto e, mais do que isso, esta merecida homenagem a Valdir Sarubbi, em 2010. Acima, imagem de mais uma das gravuras.

Além das placas gravadas, Sarubbi deixou um grande acervo de telas que foi, logo após seu falecimento, cuidado por Marina Marcondes Machado, mãe de Jonas, que na época só tinha 15 anos. Abaixo, segue a entrevista que fiz com Jonas, pouco tempo depois de sua visita a Belém.

ENTREVISTA

No ano que vem, completam 10 anos de morte de seu pai. Quando foi que vocês começaram a cuidar do acervo deixado por ele?

Jonas Medeiros:
Na verdade, precisamos começar a remexer no acervo desde o primeiro momento, ainda “de luto”, para “desmontar” o atelier que meu pai mantinha na Rua Albuquerque Lins, no mesmo apartamento em que ele morava. Como o espaço era alugado, tivemos que lidar não só com o acervo, mas também com papéis, pastas, móveis, livros e LPs, de modo que, em três meses, esvaziamos o apartamento.

Com o que vocês foram se deparando?

Jonas Medeiros:
Minha mãe foi de fato a responsável pelo “desmanche” do atelier, criando alguns critérios para guardar tudo aquilo que parecesse de alguma maneira importante para a memória do meu pai, e elegendo amigos e conhecidos para doar móveis, telas em branco, fogão, geladeira e outras coisas do gênero. Na época eu tinha só 15 anos de idade.

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O que vocês mantêm guardado?

Jonas Medeiros:
Hoje, no nosso apartamento, mantemos um quarto só para abrigar os quadros. Nós temos uma série de telas inéditas que meu pai estava pintando entre 1999 e 2000 (ao lado esquerdo, uma delas).

De nove anos pra cá, entramos em contato com colecionadores e também com amigos próximos de nós e do meu pai. Vendemos algumas obras, especialmente por necessidade financeira. Foi assim que a DAN Galeria adquiriu grande parte da série dos chamados “desenhos negros” e realizou, em 2006, uma exposição desses trabalhos que foi bem bonita e interessante.

A mapoteca do meu pai fica na sala do nosso apartamento, contendo desenhos, gravuras, pequenas pinturas em papel, além de rascunhos e esboços, estes de valor mais histórico. Também temos guardadas pastas e mais pastas com documentos, reportagens, resenhas, críticas, ou seja, textos escritos pelo e sobre o meu pai. Pensamos que todo esse arquivo deveria ser, algum dia, objeto de pesquisa de algum profissional sério, interessado em preservar, reconstituir e valorizar a obra do meu pai.

Quando nasce o projeto das gravuras e quais as parcerias que já estão fechadas?

Jonas Medeiros: Bom, o projeto de reedição póstuma das gravuras do meu pai nasceu da nossa vontade em resgatar a obra do meu pai, fazer com que ela circule no mundo, que as pessoas possam entrar em contato – em vez da obra ficar aqui, preservada mas isolada.

Quem nos apoiou bastante para começar a tocar este projeto foi o fotógrafo Juan Esteves, cerca de dois anos atrás. Ele nos ajudou a entrar em contato com a Graphias, atelier que será responsável pela impressão das gravuras, e com o Collegio das Artes, escritório parceiro para formatação do projeto para a Lei Rouanet.

O Juan também fotografou a impressão-piloto para nós, que já foi realizada, comprovando a boa qualidade das chapas que mantínhamos aqui em casa. É importante registrar que, antes do Juan nos convencer em apostar neste projeto, esta idéia já vinha nos rondando a mente, principalmente por causa dos conselhos valiosos que recebemos do Gileno Chaves, que além de grande amigo pessoal do meu pai, foi uma pessoa muito importante para a carreira dele.

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Como funcionará a parceria com as instituições que receberão as caixas com as gravuras?

Jonas Medeiros:
A idéia do projeto envolve a parceria com nove museus brasileiros, o que o torna um projeto de alcance nacional. As parcerias consistem na doação de uma Caixa de Gravuras, contendo 27 imagens impressas postumamente, com o compromisso de cada museu organizar uma exposição de homenagem póstuma a Valdir Sarubbi, preservando adequadamente as gravuras em seu acervo.

Mais uma das gravuras, acima.

Também serão doados catálogos, em edição bilíngüe e com texto de apresentação do artista, gravador e professor universitário Cláudio Mubarac. Esse formato nos foi sugerido pelo Marcelo Araújo, diretor da Pinacoteca do Estado de São Paulo.

Nossa vontade é de que as exposições sejam feitas de forma relativamente simultânea, em diferentes cidades do Brasil, no ano de 2010, por volta dos meses de outubro e novembro, que são os meses do nascimento (se o meu pai estivesse vivo ele faria 70 anos neste ano) e do falecimento (10 anos de sua morte em 2010).

Quais são os museus e instituições envolvidas?
Jonas Medeiros: Já obtivemos o aceite de sete dos nove museus: Pinacoteca do Estado de São Paulo, Casa das Onze Janelas em Belém, Museu de Arte de Brasília, MAMAM do Recife, MARGS de Porto Alegre, MAC-Dragão do Mar em Fortaleza, MARCO em Campo Grande, e estamos esperando resposta definitiva do MAM do Rio de Janeiro e do MON de Curitiba.

Entre os achados no apartamento dele, havia muitos escritos. Você sabia que ele cultivava uma veia de escritor também?

Jonas Medeiros: Se eu conhecia bem esse lado do meu pai? Acho que não… Eu tenho muitas lembranças lá por 1999, 2000, que foram os dois últimos anos de vida dele, de acompanhar o processo de escrita. Ele, sentado no computador, imprimindo diferentes versões do texto, depois mandando cópias para pessoas que ele conhecia como a prima dele Maria Lúcia Medeiros, escritora que morava em Belém. O meu pai chegou a ilustrar algumas capas de livros dela.

Eu sempre tive muita dificuldade em ler os escritos dele, quero dizer, em vida, eu acho que não dei o valor que hoje eu gostaria de ter dado, talvez por ser muito novo e, agora, depois da sua morte, eu ainda acho doloroso pegar os textos dele pra ler.

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Como ele te vem na memória?

Jonas Medeiros:
Eu tenho uma memória daquelas que você não sabe se ela vem realmente de conversas que eu tive com o meu pai, ou então se ela já é fruto daquilo que li em entrevistas dele, sobre a vontade de ser escritor quando era jovem, uma “vontade de escrever como o Guimarães Rosa”.

Eu não sei se existem textos desses anos que sobreviveram, mas ele falava que, por ser um bom leitor, ele reconhecia que ele mesmo não era um bom escritor nessa época.

Acho que, com o passar dos anos, ele foi sentindo a vontade de se expressar de outras formas, para além das artes plásticas. O que eu posso te dizer sobre os escritos é que existem duas impressões em papel, que mantemos aqui em casa; uma série de contos chamada “Amanhecer, amanheceres” e um romance que se chama “Histórias paralelas”. Eu não sei muito bem dizer qual a relação entre um e outro, só sei dizer que os dois começam com uma dedicatória assim: “Para Jonas, estas memórias de minha cidade natal”.

Essa coisa de memória tem tudo a ver com o todo da obra, se for ver nesta própria dedicatória está contida uma referência ao “Quarteto de Alexandria”, do escritor Lawrence Durrell, que faz uma dedicatória quase igual a essa. A série do meu pai “Memórias de Alexandria”, que marca uma produção mais abstrata na virada da década de 1980 para a de 1990, é inspirada nessa série de livros, segundo ele mesmo uma “releitura sensível” destes livros. Então no final das contas a literatura sempre esteve como horizonte do meu pai, seja como leitor, como “releitor”, na forma da produção artística e também no final da vida, como escritor.

Depois de todos esses anos, eu e minha mãe ainda não conseguimos encaminhar a forma de tornar isso público, de modo que seja reconhecido, vamos ver se isso não vira um projeto pros próximos anos…

ACERVO


Como foi retornar a Belém? Você visitou várias pessoas ligadas diretamente ao teu pai ou à obra dele.

Jonas Medeiros: É verdade. Eu estive em Belém agora no final de janeiro e acho que não deu ainda pra digerir totalmente o que foi essa viagem, principalmente porque tudo foi muito intenso. Foram cerca de 10 dias que muitas coisas aconteceram.

Encontrei toda a minha família que eu não via há anos e conheci pessoas que eu não conhecia, além de estar com meus amigos de São Paulo, que foram mais ou menos na mesma época para o Fórum Social Mundial.

Na foto logo acima, obra do acervo Valdir Sarubbi.

O que aconteceu de mais importante?

Jonas Medeiros:
Acho que o mais importante, nesse caso, foi que a viagem me proporcionou assumir um papel mais ativo em relação ao cuidado do acervo do meu pai. Eu pude entrar em contato com dirigentes de diferentes museus de Belém, como a Nina Matos na Casa das Onze Janelas e a Jussara Derenji, no Museu da UFPA, além de ter encontrado a Lucinha Chaves, esposa do Gileno, na galeria Elf.

Também conversei com outras pessoas sobre a possibilidade de valorizar a obra do meu pai em Belém, como o Ronaldo de Moraes Rêgo e o Mariano Klautau Filho. Como estava para começar o período de captação de recursos por meio da Lei Rouanet para o projeto das gravuras, eu também estava interessado em sondar possíveis formas de patrocínio.

Tive a oportunidade de encontrar o prof. Benedito Nunes e a sua esposa Maria Sylvia Nunes, que foram grandes amigos do meu pai. Foi um prazer ter sido recebido na casa deles. Mas acho que o principal dessa viagem na verdade foi ter voltado pra Belém. Eu tinha ido pela primeira e única vez, em agosto de 1998, com o meu pai, obviamente. Na época, ele foi homenageado em diferentes ocasiões, aconteceram exposições em Belém e na cidade-natal dele, Bragança. Acho que esse foi o núcleo dessa viagem. Ter voltado sozinho, sem ele, foi muito intenso, de diferentes maneiras.